2026/04/05

Dia 2587


Ao contrário do que muitos pensam, eu não sou anti social. Eu sou bem sociável na verdade, apenas não forço relacionamento ou atitudes para agradar os outros ou fazer o status de estar em uma mesa que não me agrega absolutamente nada a não ser um interesse pessoal e supérfluo de uma aparência que eu nem quero. Essa roupa não me serve e não preciso fingir. Eu gosto na verdade de uma boa conversa, de ouvir coisas, pessoas, direções que são novas para minha mente inquieta. Quando ouço os outros falarem, a minha mente fica quieta escutando atentamente. 

Observo as expressões que o rosto faz ao se empolgar em contar algo realmente alegre, o sorriso dos olhos e os lábios tímidos já quase sem batom de tão animador que foi falar por trinta minutos sobre aquela lembrança feliz. Ou, sobre o olhar baixo e as mãos constrangidas mexendo em um guarda napo amassado sobre os últimos dez minutos comentando sobre algo que realmente machucou e ainda não cicatrizou. A ferida aberta, exposta, mas a confiança de que eu vou ouvir tudo isso e não vou usar depois para criar outra ferida ainda maior. Com uma esperança silenciosa de que em algum lugar exista alguém que não venha pra tirar, e sim pra entender.

E embora eu fuja de contatos físicos, quando precisar de um abraço não exite. Venha sem pedir. Porque no fim do dia oferecemos aquilo que somos, aquilo que temos. Durante muito tempo tentei entender porque algumas pessoas machucam quem foi boa pra elas. Até perceber algo simples: as pessoas não oferecem aquilo que você merece, elas oferecem aquilo que tem dentro delas. Quem tem empatia, entrega cuidado. Quem tem frieza, entrega distância. Quem tem amor, entrega presença. No fim das contas cada pessoa revela o tamanho da própria essência. E não adianta tentarmos plantar em solos que não querem florescer. Alguns solos são apenas caminhos para grandes jardins. Atitudes mudam sentimentos. 

Dia 2586

E então trocaram conversas, músicas, risadas e companhia. Logo trocaram olhares, beijos e abraços. Demais para ficar, pouco para ir. Trocaram carícias, calores e afetos. Logo, trocaram palavras, silêncios e distâncias. Bom demais para parar, ruim demais para terminar. Me leve para onde os dias não pesam, por favor. 

Escrevo porque não tenho pra quem contar as coisas do meu coração, da minha vida e do meu pensar. Escrevo para não falar sozinho, não sonhar sozinho, não sentir sozinho. Escrevo para gritar entre as linhas e passar despercebido, tentando não machucar ninguém. Escrevo para tentar expressar meu amor ansioso.

O amor do ansioso é sempre o mais sincero, mesmo porque não temos tempo para fingir, estamos sempre lutando contra o tempo, com medo de perder. Somos os mais fiéis, porque sabemos antecipadamente como é a dor e o sofrer de uma traição. E por isso tanto cuidado, para não fazer em alguém o que já fizeram com a gente. 

Somos inseguros e precipitados, desculpe por isso. Pedimos muitas desculpas, desculpe por isso também. E sim, como todo ser humano vamos errar também. Mas se um ansioso luta para te manter na vida dele, acredite, às vezes ele mesmo pensa em desistir de si próprio. E se mesmo assim ele não desiste de você, cuide. A gente não ama de mentira. 

Somos o porto seguro de quase todo mundo. Uma palavra amiga, um abraço pronto. Aquele que sempre tem um conselho. O engraçado que tira o peso do ambiente, mas quando precisamos, temos apenas o sol do silêncio. A primeira pessoa para desabafar, mas última com alguém para ficar. Só não se esqueça, você é importante.