Amei a viagem, não o porto. Por essa razão meu barco partiu. Partiu em meio a madrugada escura e silenciosa. Sem adeus, pois o adeus foi dito em outras chegadas e partidas que não foram percebidas. Agora parto sem rumo, pois meu mapa eu rasguei e talvez não queira fazer os mesmos caminhos outra vez.
Não é porque você ama o oceano que você tem que deixar ele te afogar. Não é porque gostamos do mar que temos que morrer afogados. Essa frase não é sobre o mar. Ou tão pouco sobre sua imensidão, profundidade e conforto que um belo mergulho proporciona. Mas sim, seria ótimo ter uma imensidão, profundidade e conforto visto termos tanta monotonia, pessoas rasas e distantes hoje em dia.
Existe uma melancolia antiga morando em mim. Como se eu tivesse nascido com saudade das coisas antes mesmo de perdê-las. Tudo me atravessa demais — a luz do fim da tarde, uma música distante, o silêncio depois das conversas felizes. Há beleza em tudo, mas quase sempre acompanhada de uma tristeza mansa, como se o mundo inteiro estivesse lentamente se despedindo de si mesmo. E talvez o mais estranho seja isto: parte de mim não sabe existir sem essa delicada ruína.
Onde você está agora? Sozinha ou acompanhada, em que momento você está? Por favor, não diga que está presa na monotonia, sendo uma pessoa raza e que esteja distante porque, do lado de cá, tem alguém ansioso pra conquistar o mundo, cheio de tesão pela vida e com um brilho nos olhos. É seu dever, no mais lógico dos cenários, acompanhar. Ninguém quer ficar preso na tristeza, então torna-se o brilho de alguém. Não sei o que vai fazer pra isso acontecer, mas é muito importante que você faça alguma coisa. Do contrário, vai perder. E esse perder não tem volta, recomeço, concerto. Ele é um desvio de rota pra um novo caminho, incerto, diferente e sozinho.
E eu? Eu embarquei no desconhecido e quando cheguei a este destino... Queimei o barco.

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