Hoje seria um daqueles dias que eu te contaria um montão de coisas. Os perrengues, os risos do almoço, o ticket do estacionamento que travou, quem me irritou, a poça de água e os passarinhos na janela. Mas aí lembrei que chegaria em casa e só haveria silêncio.
O silêncio, geralmente, é a minha pior versão. Porque eu gosto de falar, de brincar, de rir alto, de me perder em conversas longas e sem rumo. O silêncio, quando chega, nunca vem leve. Ele sempre carrega alguma coisa atravessada em mim. Porque a minha forma mais honesta de existir é essa: fazendo barulho. Quando fico em silêncio é porque cheguei ao meu limite, ou ultrapassei ele.
Ultimamente andei me dando alguns luxos como chorar um pouco mais. Ter um tempo maior para dedicar a mim e aos meus pensamentos. Acalmar meu espírito e meu coração. Se eu hoje pudesse dar um conselho, seria: Concentre-se em você. As pessoas acordam com sentimentos diferentes todos os dias.
E o grande marco pra que eu começasse a enxergar assim foi quando olhei no espelho e não reconheci o reflexo. Quem é esse cara? Um desconhecido me olhando de volta. Não é estranho? Só podemos ver o nosso lado de fora quando quase tudo acontece do lado de dentro?
Fui dormir sozinho, acordei sozinho. Fui tomar café e lembrei que não havia mais ninguém ali pra fazer o café. Tomei banho e olhei o relógio, ainda era cedo. Parece que o relógio agora anda mais devagar. Fui trabalhar sozinho e ouvi as histórias deles, observei risos e interações deles na hora do almoço. Voltei tarde pra casa mas, ainda era cedo. Comi qualquer coisa, a televisão e o celular me engoliram. Fui dormir e ainda era cedo demais. Tudo parecia mais devagar agora.
Parei na varanda com o café frio que ficou na pia e o som da sirene ao longe corta a madrugada e me lembra que, em algum lugar, a urgência de alguém é real, enquanto a minha é apenas uma ânsia de ficar bem logo.
