2024/12/28

Dia 2559

Você nunca encontrará a mesma pessoa duas vezes, nem na mesma pessoa. Somos feitos de destroços do que um dia foram nossos sonhos, somos uma colcha de retalhos, de quadros que já não fazem mais sentido. Somos suturas mal feitas e sangramento não estancado. Somos falhos, doloridos e reais. Somos a continuação de um fim, de ciclos, de dores, de amores. Continuamos, mesmo quando sentimos que não exista mais motivos para. 

Cuide bem enquanto der, mas cuidado. Às vezes o gelo da pessoa não combina com o seu calor.

É bem provável que você ainda se apaixone umas cinco vezes durante o restante da sua vida. Chore por “amor” algumas tantas outras. E diga “Eu te amo” para alguém em alguns momentos. Mas, sempre haverá uma pessoa, não uma simples pessoa. É aquela bendita pessoa, que vai te fazer perder o sono, ouvir músicas estúpidas, sorrir para o cachorro Pit Bull do vizinho, ler piadas para saber como fazer tal pessoa rir, assistir filmes que não gosta, e aprender a cozinhar. Não é uma tarefa fácil. Até porque, estudos comprovam que não é sempre que ficamos com quem amamos de verdade. De qualquer modo. Cuida dessa pessoa direitinho, aproveita cada bobagem. Vale a pena.

2024/12/21

Dia 2558

E nos piores dias, os melhores entardeceres. É um afago do universo tentando nos acariciar assim, de leve, como se fosse um abraço aconchegante. Seguro. 

Você será lembrança, meu amor. Hoje não, mas um dia será. Será um fragmento de um momento guardado com carinho, sem começo ou fim. Apenas o meio da memória repartida no tempo, que perdeu pedaços pelo caminho. Sobreposta dentre tantas outras lembranças sem importância. Lutando para ficar, mas, esvaiando como nuvem no céu quando o vento bate forte.

E no fim tudo o que te restará serão lembranças minhas. Nossos momentos que já não podem mais se repetir, elogios sussurrados enquanto estávamos juntos na cozinha, meu sorriso enquanto te olhava nos olhos. E talvez você sinta minha falta, assim como eu sentia a sua enquanto estávamos juntos.

Algo pequeno, quase tímido, mas que ainda está ali. É minha presença quase esquecida em cada palavra. Como se houvesse todo tempo do mundo. Tempo. Hoje essa palavra soa até engraçada, pois olha quanto tempo, o tempo nos levou. 

É bom conversar com alguém que conversa com você. Que te ouve, que entra na sua alma, que te ajuda a gritar o que nem sabia que precisava ser dito. Criamos tantas expectativas sobre o outro que esquecemos que são apenas pessoas frágeis, falhas, caóticas e em construção. 

Mas esquece tudo. Já parou para olhar o entardecer hoje? Está lindo.

2024/12/12

Dia 2557

 

Não sangrou, então ninguém percebeu quando eu morri. E eu já morri algumas vezes. Morri em 1999, em 2001. Morri de novo em 2010, 2011, 2012, 2014, 2015 e 2016. Morri também em 2019 e 2023. 2024. Mas ninguém está realmente sabendo disso e até se importando tanto. Um tanto faz, com "e daí?".

Cicatrizes que ninguém vê. Lágrimas que não molham. Feridas que não sangram e gritos que ninguém ouve. Eu era tão novo, tão animado. Que vontade de me pedir perdão, Deus!

Aprendi a não pegar o que não é meu. Eu entendo sua dor, eu realmente sinto muito, mas ela é sua e só você pode se salvar. Eu posso te ouvir, posso te dizer o que realmente penso, mas sua vida só muda quando você muda. O paraíso morre quando você fica triste. 

A gente se mata todos os dias em dose conta gotas de suicídio não violentos. Morremos um pouco quando deixamos de ser quem gostaríamos. Quando silenciamos as nossas verdades, quando amamos e não somos amados, quando os vícios se tornam os melhores momentos, quando fazemos as coisas por obrigação e não por vontade. Morremos. Esse é o dia que perdi minha voz. Pagina 64, de um livro qualquer. 

2024/12/10

Dia 2556

A você, todo meu amor. 

Um banho quente, meias confortáveis. A boa e velha xícara de café pela metade. A janela da varanda aberta, a cortina esvoaçando para fora. As roupas na cadeira do dia anterior. As chaves da casa, do carro e do coração em cima da mesa. 

Eu estava lá quando começamos. Eu estava lá quando terminamos. Eu estava lá quando recomeçamos. Feliz do homem que tem o céu e o inferno dentro da mesma mulher. Não haverá tédio, rotina, mesmice e fadiga. 

Eu era capaz de carregar o teu universo e viver contigo todas as suas dores antes do café da manhã. Mas parece que não era o suficiente e você queria mais. Um mais que não pertencia a mim te dar. 

Daqui eu só torço pra que seja feliz, e encontre tudo aquilo que faz seu coração brilhar. Você merece o lado bom desse mundo. Odeio ter que colocar pontos finais onde eu claramente queria escrever um livro gigantesco. 

Me envie uma mensagem caso deseje ser escutada e talvez te faça rir um pouco. E quando for embora, me avisa assim que chegar? Que você não precise mais chorar, pequena.

2024/12/08

Dia 2555

Carta aberta ao que restou de mim.

Na busca incessante de ser, acabei me tornando o que não deveria ser. Na ânsia de me moldar as expectativas, abandonei o que me fazia único. Meu riso perdeu a espontaneidade, meus passos ficaram mais pesados e minha essência virou um eco distante sufocado pelas camadas que criei para me proteger. Eu quis tanto ser aceito que me rejeitei. Fui tão longe tentando agradar que me perdi no caminho.

O reflexo no espelho já não conversa comigo e as conquistas que antes pareciam tão importantes, agora não passam de troféus vazios. Quem sou eu além das aparências? Quem sou eu sem máscaras? Talvez a resposta esteja no silêncio que eu sempre temi. No ato de parar e encarar a verdade, pra ser quem devo ser preciso me desaprender quem me tornei. Preciso voltar ao início, onde minha essência sabia o que era viver sem medo. Talvez na desconstrução eu me encontre novamente. 

Queria ser a pessoa que não se importa. Não ser a pessoa que finge não se importar, porque eu me importo. Me importo pra caralho. Não sei fingir que não está acontecendo e que não me abala. Que sou a prova de balas. Eu não sou. Vou ver acontecendo e querer abrir a cortina, pra que você viva mais intensamente. Pra que fique bem. E eu? Eu fico para depois. 

Não é martírio, apenas as coisas foram acontecendo e eu fui deixando, até ficar fora de controle. E quando fui ver estava eu no alto da montanha, mas eu não queria pular. A chaleira apitou, o gato miou e a porta se abriu. Nada mais era como antes.