2025/01/09

Dia 2561


Nada quebrado.

Nada faltando.

Nada fora do lugar.

Eu estou bem. Só não posso pensar, não posso lembrar e não posso ficar sozinho. Na maioria dos dias, eu acordo e me forço a levantar da cama antes do próximo despertador tocar. Sinto a primeira vitória do dia. Já é 1x0 pra mim. Lavo o rosto, 2x0. Preparo um café e os ovos mexidos. 4x0. Um banho gelado, roupas passadas e um perfume. 7x0. Sapatos e o botão do elevador. 9x0. Virei a chave do carro. Foi um dia de vitória. 

Mas em alguns dias, alguns dias parecem semanas em um único dia. Dias intermináveis, despertadores infinitos. O olho nem abre e a comida não tem gosto. Nem me lembro o que comi. O café que tanto é eficaz hoje decidiu não ser. A água caindo no meu corpo parecem mil alfinetes caindo todos de uma vez. Nenhuma roupa fica boa, parece que ganhei peso ou esqueci de lavar a camisa na outra vez. E o perfume? Esse acabou. O cordão do sapato estoura e o elevador está fora de serviço. O carro não dá partida. O que mais posso fazer?

A música da rádio diz que está tudo bem e eu repito o refrão incontáveis vezes até acreditar realmente. Alguns dias eu venço, outros não. Eu tento não pensar tanto, lembrar tanto e sempre que possível, estar perto de pessoas com bom coração. Mas como é difícil encontrar pessoas assim hoje em dia. Se uma pessoa ocupada decide se preocupar com as suas merdas mesmo com tanta coisa pra resolver, significa que ela realmente se importa e não está apenas querendo cuidar da própria solidão. Porque no final, todos somos solitários, românticos e esquecidos. 

Shalom.

2025/01/01

Dia 2560

 


Tenho um jeito meio quieto de ver a vida. Gosto de como o céu muda de cor no fim da tarde, de como as pessoas sorriem distraídas. Acho que o mundo é mais bonito quando ninguém está tentando nota-lo. Aquele momento foi tão bom que eu nem tirei foto, sabe? 

Tudo na vida tem seu tempo, o café que queima sua boca agora, daqui 30 minutos estará frio. Já parou para pensar quantas pessoas já te conhecem em uma versão sua que já não existe mais? 

Somos uma utopia, meu bem. E isso nunca vai mudar. Quando a gente entende que ninguém tem a responsabilidade de cuidar da nossa dor, a vida começa a ficar mais fácil. Projetar nos outros aquilo que depende de nós é um baita erro, eu precisei passar por muitos perrengues para entender que nem sempre haverá um colo e uma mão estendida e isso é porque cada um tem seu processo particular. Às vezes o outro não demonstra, mas cada um tem seu fardo para carregar, viver é assim tem suas fases. Vão ter dias que nós mesmos vamos ter que nos consolar, e maturidade é isso entender que não é porque o outro não nos ajudou que ele deixou de nos amar. Cada um tem seu corre e luta, nem sempre o outro vai poder ter a disponibilidade de guardar sua própria dor no bolso para nos ajudar.

Se você conseguir entender isso com leveza e sem culpa, você entendeu a piada até o final.

2024/12/28

Dia 2559

Você nunca encontrará a mesma pessoa duas vezes, nem na mesma pessoa. Somos feitos de destroços do que um dia foram nossos sonhos, somos uma colcha de retalhos, de quadros que já não fazem mais sentido. Somos suturas mal feitas e sangramento não estancado. Somos falhos, doloridos e reais. Somos a continuação de um fim, de ciclos, de dores, de amores. Continuamos, mesmo quando sentimos que não exista mais motivos para. 

Cuide bem enquanto der, mas cuidado. Às vezes o gelo da pessoa não combina com o seu calor.

É bem provável que você ainda se apaixone umas cinco vezes durante o restante da sua vida. Chore por “amor” algumas tantas outras. E diga “Eu te amo” para alguém em alguns momentos. Mas, sempre haverá uma pessoa, não uma simples pessoa. É aquela bendita pessoa, que vai te fazer perder o sono, ouvir músicas estúpidas, sorrir para o cachorro Pit Bull do vizinho, ler piadas para saber como fazer tal pessoa rir, assistir filmes que não gosta, e aprender a cozinhar. Não é uma tarefa fácil. Até porque, estudos comprovam que não é sempre que ficamos com quem amamos de verdade. De qualquer modo. Cuida dessa pessoa direitinho, aproveita cada bobagem. Vale a pena.

2024/12/21

Dia 2558

E nos piores dias, os melhores entardeceres. É um afago do universo tentando nos acariciar assim, de leve, como se fosse um abraço aconchegante. Seguro. 

Você será lembrança, meu amor. Hoje não, mas um dia será. Será um fragmento de um momento guardado com carinho, sem começo ou fim. Apenas o meio da memória repartida no tempo, que perdeu pedaços pelo caminho. Sobreposta dentre tantas outras lembranças sem importância. Lutando para ficar, mas, esvaiando como nuvem no céu quando o vento bate forte.

E no fim tudo o que te restará serão lembranças minhas. Nossos momentos que já não podem mais se repetir, elogios sussurrados enquanto estávamos juntos na cozinha, meu sorriso enquanto te olhava nos olhos. E talvez você sinta minha falta, assim como eu sentia a sua enquanto estávamos juntos.

Algo pequeno, quase tímido, mas que ainda está ali. É minha presença quase esquecida em cada palavra. Como se houvesse todo tempo do mundo. Tempo. Hoje essa palavra soa até engraçada, pois olha quanto tempo, o tempo nos levou. 

É bom conversar com alguém que conversa com você. Que te ouve, que entra na sua alma, que te ajuda a gritar o que nem sabia que precisava ser dito. Criamos tantas expectativas sobre o outro que esquecemos que são apenas pessoas frágeis, falhas, caóticas e em construção. 

Mas esquece tudo. Já parou para olhar o entardecer hoje? Está lindo.

2024/12/12

Dia 2557

 

Não sangrou, então ninguém percebeu quando eu morri. E eu já morri algumas vezes. Morri em 1999, em 2001. Morri de novo em 2010, 2011, 2012, 2014, 2015 e 2016. Morri também em 2019 e 2023. 2024. Mas ninguém está realmente sabendo disso e até se importando tanto. Um tanto faz, com "e daí?".

Cicatrizes que ninguém vê. Lágrimas que não molham. Feridas que não sangram e gritos que ninguém ouve. Eu era tão novo, tão animado. Que vontade de me pedir perdão, Deus!

Aprendi a não pegar o que não é meu. Eu entendo sua dor, eu realmente sinto muito, mas ela é sua e só você pode se salvar. Eu posso te ouvir, posso te dizer o que realmente penso, mas sua vida só muda quando você muda. O paraíso morre quando você fica triste. 

A gente se mata todos os dias em dose conta gotas de suicídio não violentos. Morremos um pouco quando deixamos de ser quem gostaríamos. Quando silenciamos as nossas verdades, quando amamos e não somos amados, quando os vícios se tornam os melhores momentos, quando fazemos as coisas por obrigação e não por vontade. Morremos. Esse é o dia que perdi minha voz. Pagina 64, de um livro qualquer. 

2024/12/10

Dia 2556

A você, todo meu amor. 

Um banho quente, meias confortáveis. A boa e velha xícara de café pela metade. A janela da varanda aberta, a cortina esvoaçando para fora. As roupas na cadeira do dia anterior. As chaves da casa, do carro e do coração em cima da mesa. 

Eu estava lá quando começamos. Eu estava lá quando terminamos. Eu estava lá quando recomeçamos. Feliz do homem que tem o céu e o inferno dentro da mesma mulher. Não haverá tédio, rotina, mesmice e fadiga. 

Eu era capaz de carregar o teu universo e viver contigo todas as suas dores antes do café da manhã. Mas parece que não era o suficiente e você queria mais. Um mais que não pertencia a mim te dar. 

Daqui eu só torço pra que seja feliz, e encontre tudo aquilo que faz seu coração brilhar. Você merece o lado bom desse mundo. Odeio ter que colocar pontos finais onde eu claramente queria escrever um livro gigantesco. 

Me envie uma mensagem caso deseje ser escutada e talvez te faça rir um pouco. E quando for embora, me avisa assim que chegar? Que você não precise mais chorar, pequena.

2024/12/08

Dia 2555

Carta aberta ao que restou de mim.

Na busca incessante de ser, acabei me tornando o que não deveria ser. Na ânsia de me moldar as expectativas, abandonei o que me fazia único. Meu riso perdeu a espontaneidade, meus passos ficaram mais pesados e minha essência virou um eco distante sufocado pelas camadas que criei para me proteger. Eu quis tanto ser aceito que me rejeitei. Fui tão longe tentando agradar que me perdi no caminho.

O reflexo no espelho já não conversa comigo e as conquistas que antes pareciam tão importantes, agora não passam de troféus vazios. Quem sou eu além das aparências? Quem sou eu sem máscaras? Talvez a resposta esteja no silêncio que eu sempre temi. No ato de parar e encarar a verdade, pra ser quem devo ser preciso me desaprender quem me tornei. Preciso voltar ao início, onde minha essência sabia o que era viver sem medo. Talvez na desconstrução eu me encontre novamente. 

Queria ser a pessoa que não se importa. Não ser a pessoa que finge não se importar, porque eu me importo. Me importo pra caralho. Não sei fingir que não está acontecendo e que não me abala. Que sou a prova de balas. Eu não sou. Vou ver acontecendo e querer abrir a cortina, pra que você viva mais intensamente. Pra que fique bem. E eu? Eu fico para depois. 

Não é martírio, apenas as coisas foram acontecendo e eu fui deixando, até ficar fora de controle. E quando fui ver estava eu no alto da montanha, mas eu não queria pular. A chaleira apitou, o gato miou e a porta se abriu. Nada mais era como antes.

2024/11/09

Dia 2554

5 minutos sozinho com a minha mente e é o próprio caos acontecendo. A junção de vários restinho de momentos que aconteceram, ficam assim, me esmagando como se fossem uma sequência interminável de atropelamentos de trem passando por cima de mim. Por cima de mim.

A metacognição tem me pesado bastante. Futuro e passado já nem se relacionam mais, mas cada um com seu peso me deixa sem ar. Acordando todo dia com culpas de ontem, de hoje e culpas de dias que ainda nem vieram. 

Eu me sinto estranho. Às vezes sinto muita vontade de ficar sozinho, mas sinto falta da companhia. Sou um cara muito feliz, mas às vezes minha mente me massacra com várias coisas tristes.

Algumas vezes fico brigando comigo mesmo, porque na minha cabeça eu fico me auto cobrando porque estou cometendo os mesmos erros do passado. Tenho vontade de me fechar para o mundo, mas também quero que todo mundo se abra comigo quando precisar. Eu me tornei tão estranho que aconselho as pessoas a não abandonarem as amizades. Mas eu mesmo raramente consigo manter alguém por perto por muito tempo.

As pessoas que conhecem meu lado bom, se encantam. Mas quando conhecem o lado que eu escondo, se assustam. Acho que a história do solitário conhecido se encaixa perfeitamente. As vezes, nem eu mesmo entendo. Eu sou um cara poeticamente triste, mas que está sempre sorrindo. 

2024/11/02

Dia 2553


Eu estou preparado. Dormi o suficiente à noite passada e sem pesadelos, estou relaxado. Sem pesadelos. Me mantive focado por um longo período, foquei no objetivo. Desliguei os aparelhos e minha mente está leve. Tranquila. Minha respiração está calma e meu corpo está em estado de espera. 

Não tenho distrações ou desvios de atenção, estou concentrado. Meu coração está sereno, em paz. Estou pensando em um ponto fixo e não em extremos. Eu sei a minha missão.

Pela primeira vez eu sei o que preciso fazer. Estou preparado. Pronto para cumprir minhas funções da melhor forma possível. Eu estou focado apenas no essencial, alheio a todo resto. Só vou tomar decisões pragmáticas. Não vou me permitir distrações levianas, não vou me permitir pensar em coisas não importantes.

Eu não vou depender de ninguém nem de nada. Não vou estar sujeito a erros. Sorriso sempre no rosto, mas é teatro e eu fico ansioso para sair dessa cena. O futuro é incerto mas não estou preocupado. 

Eu vou viver. Eu vou amar. E eu vou morrer. A gente se acostuma com a dor. A gente se acostuma. A gente se adapta a praticamente a qualquer coisa... Desde... Que... Haja... Rotina. Não é? A mente humana anseia por rotina. Precisa dela. Mas se a gente tirar isso, é aí que começamos a enlouquecer. Quando não há mais dia, nem noite, nem comida, nem água, nem padrões. E sabe o que é loucura? Mesmo sabendo o que acontece, racionalizar não ajuda em nada.

As pessoas acham que tortura é dor. Não é dor. É tempo. É o tempo de lentamente você perceber que sua vida acabou. Agora só te resta o pesadelo. E você e eu temos tempo, não é mesmo?

Eu estou preparado.

2024/10/22

Dia 2552

Mas, apesar da estranheza inicial do primeiro toque e primeiro beijo, tudo se encaixou como peças de quebra-cabeça. O seu corpo encaixou no abraço, o seu colo acolheu como nenhum nunca fez igual e o seu cheiro penetrou como um perfume feito de propósito para aquele momento.

Ninguém está pronto para mostrar suas fraquezas novamente. Os dois, numa cafeteria, domingo à tarde. Os olhares se encontram entre os goles de café e "adoro quando você sorri" sai pronunciado assim, sem querer. Isso aquece por dentro e transforma o momento. Aposto que é uma ótima lembrança. Quando a gente recebe amor, parece até errado. 

Você merece alguém tão bobo ao seu lado que não consiga evitar de sorrir só de olhar para essa pessoa. Que te enxergue no deserto. Afinal, quem é você no deserto? Ou, quem é você quando quem você ama, está no deserto?

O que eu faço quando nem o silêncio faz silêncio?

Quem te largou no meio do oceano não tem direito de saber o que aconteceu entre você e os tubarões e muito menos como você conseguiu chegar à praia.

Somos um montão de caos e algumas alegrias. Precisamos dessa catástrofe por dentro para nos sentirmos vivos ao menos uma vez. Esteja com a pessoa que te resgatou do deserto, que te dê oceanos e que respeite o teu silêncio. Mas, acima de tudo, que esteja lá.

Um beijo, um sorriso, um toque. É tudo que temos. Então temos muito. Um texto gostoso demais para ser lido rapidamente.

2024/09/09

Dia 2551

 

Comecei um texto, apaguei duas linhas. Não quis mais escrever. Não consegui organizar o que queria dizer. Fiquei pensando que o que eu queria dizer não deveria ser dito. Me afoguei nas palavras. 

Poderia ficar me lamentando pelas horas a seguir, mas olhei a janela e o dia estava tão lindo. Era convidativo ir viver e que se foda a tristeza e solidão. Eu não precisava dessa mágoa e desse peso. Não dava pra ser covarde.

Te liguei e perguntei o que faria no fim do dia. Respondeu sorrindo na fala que iria me encontrar, mas teria que pedir. Não é gostoso? Quando a nossa pessoa preferida fala sorrindo? É encantador. Às vezes o bom dia é uma pessoa. 

A gente ama quem escolhe ficar e guarda ressentimento de quem não quis. Mas o jogo vira quando nós precisamos partir, assim como as pessoas do passado tiveram que sair de nossas vidas. Apenas na dificuldade de necessitar ir embora, que conseguimos compreender o quão complexo é o partir. Não é sobre o que se foi, mas sim sobre o que tomou o lugar como substituto: a saudade.

Comecei um texto, apaguei duas linhas. Não quis mais escrever. Não consegui organizar o que queria dizer, mas disse.

2024/08/31

Dia 2550

Nós quebramos todas as peças, mas ainda queremos jogar o jogo. A mesma distância que você cria entre nós, é a mesma que eu mantenho. Talvez tudo isso tenha servido para eu finalmente entender que não existe alguém esperando por mim no mundo, que talvez eu não tenha nascido para dividir a vida com alguém e que eu nunca vou ter uma pessoa me esperando em casa depois de um longo dia de trabalho.

Que talvez eu nunca vou ser visto como uma opção ou escolha de alguém e que por mais que eu faça de tudo para ser uma boa pessoa e um bom amor, nem sempre é suficiente. Que sentimentos e a vontade de fazer dar certo nunca vai ser o bastante se não houver reciprocidade, disponibilidade e querer de ambos. Que talvez eu tenha insistido demais esse tempo todo em algo que não foi destinado a mim. Eu mirei no amor e acertei na dor... Acertei na solidão.

Troquei a batida da música pra não ter que virar o disco. Pra ver se o coração acompanha e começa a bater pela pessoa certa: eu. Que grande ilusão pensar que seria um daqueles amores de cinema. Que seria igual as músicas de Caetano.

Mas se for olhar o mundo hoje, tente enxerga-lo com um olhar gentil. Pessoas que tem um olhar assim enxergam o mundo com amor e acabam te enxergando com amor também, e ser visto com amor tem sido mais raro do que podemos imaginar. O corpo dança com qualquer batida. Mas a pele só arrepia na frequência certa.

2024/07/20

Dia 2549

 

Abraço demorado é meu silêncio dizendo tudo que não sei dizer.

Quando eu morrer, por favor, não chorem. Festejem. Não quero velório, por favor, não. Cremação, simples, simbólico. As cinzas em um lugar bonito que eu ainda não tenha conhecido. "Não tive tempo" de conhecer. Fumem um cigarro por mim depois.

Agendem uma festa, chamem todo mundo. Quero que toque Mamonas Assassinas, Ultraje a Rigor ou qualquer coisa assim. Brindes e copos para o alto. Sorrisos. Crianças correndo, gritando e rindo por aí. 

O contrário da morte não é a vida, é o nascimento. A morte é o fim de um ciclo que começou no nascimento. Aproveitamos o meio do caminho. É necessário por um fim. Saudade fica, é claro que fica, mas todo mundo precisa de um símbolo para o fim. A minha, vai ser a última bexiga estourada com uma salva de palmas. Vai vir um silêncio depois, um constrangedor silêncio e nessa hora preciso de uma música especial. Uma bem alegre. Celebrem. 

Quando entendemos que só temos o aqui, agora, começamos a refletir em sermos reativos, em estado de humor, onde aplicamos a maior parte da nossa atenção e tempo, com quem passamos mais experiências e tudo aquilo que fizemos e também deixamos de fazer. A gente tem que tomar cuidado pra não afundar, às vezes a vida fica pesada demais.

Usem as melhores roupas que tem para irem ao mercado, e daí? Banho, cobertas e bebida quentinha. Beijem seus parceiros, seus filhos mais ainda. Abracem. Façam aquela oração poderosa quando ninguém estiver ouvindo. Riam até a barriga doer. Se preocupem menos, afinal estamos só de passagem por aqui mesmo.

Essa não é uma carta de despedida, mas estou me despedindo.

Com amor.

2024/07/12

Dia 2548

Ninguém bagunça sua casa se você não der a chave. Esse post não é sobre casas.

Eu chorei quando percebi que minhas tentativas eram em vão, que nada importava. Tu cabia em mim, mas eu não tinha espaço em você. Havia amor, é claro que havia. E enquanto eu te via em câmera lenta para gravar seus detalhes, você acelerava meus áudios no celular. Sinto falta dos seus olhos castanhos me fitando pela manhã, só que nenhuma manhã teve sol novamente.

Decidi escrever todos os dias mesmo que não tenha nada a dizer, mas sempre terá algo ou à quem me expressar, afinal, estamos rodeados de vida, de partidas e chegadas. Há algo em mim que não fecha, não cura e não cicatriza, e ás vezes dói.

Somos todos almas desgastadas, conhecendo outras almas também desgastadas, tentando entender sentimentos que um dia nos foi tão familiar. Esse lugar, esse ar, é tão confortável e aconchegante que parece lar. Arrumei a casa, troquei as cortinas e fiquei sentado no sofá esperando mas ninguém apareceu. 

A casa arrumada, mas vazia. Esse post não é sobre casas.

2024/06/15

Dia 2547


Pessoas vazias já transbordaram muitos sentimentos. Copos cheios e corações vazios. Nos cobram o tempo todo sobre o que não tem. Mas o que efetivamente estão oferecendo em troca? Ou, olharam para trás para lembrar o tanto que já receberam e não retribuíram? Somos cheios de vazios que não entendemos.

O botão do rádio parece que não acha mais a música certa. A fila no supermercado parece que está sempre ficando maior. O cadarço parece sempre estourar. A janela emperra, a luz queima e o café, droga, o café acabou. 

Tem pessoas que só começam depois de um fim. É necessário o desastre para que o primeiro tijolo seja reerguido. Quando for ver, já é manhã novamente, totalmente diferente. Às vezes é necessário a violência para que o amor tenha importância. Às vezes é necessário o fim para que tenha um começo.

Quando uma pessoa chora de tristeza ela não chora apenas por aquele momento. Mas também, por tantos outros que ela se segurou. Quando uma pessoa chora de felicidade, ela não chora apenas por aquele momento. Mas também, por tantos outros que ela nunca teve até aquele. Percebe? Tudo está em excesso. Tudo está em falta.

Vivemos à espera do momento perfeito. Ele acontece uma ou duas vezes e a gente não sabe reconhecer até ele acabar. Todos nós estamos nos consertando de alguma coisa ou de alguém e apenas uma vez, eu gostaria de ser o poema e não o poeta.

2024/06/08

Dia 2546

 

Acordei, fiz um café forte. Com a xícara na mão olhando pela janela da sacada o vento lá fora forçava as árvores a balançarem. As rajadas fortes nas folhas e galhos e depois a calmaria. Havia dança em tudo aquilo. 

Ontem fizemos amor, mas nem nos encostamos. Ela deitou no meu peito e me contou seus segredos mais secretos. Confiou em mim para falar seus pecados mais pesados. Seus medos mais obscuros. Suas inseguranças mais pertinentes. Suas vaidades mais envergonhadas. Suas vontades mais escondidas. Já era noite novamente. Fica, eu abri um vinho.

Aos meus pensamentos mais impuros, dedico a você. Nossos olhos transaram a noite toda. Enquanto se movimentamos e paramos. Enquanto eu tirava o sutiã e a calcinha dela. Enquanto eu beijava um pouco abaixo da barriga, um pouco acima da virilha, assim, no cantinho. Enquanto eu estava por cima. Enquanto ela estava por cima. Enquanto os movimentos pararam e só havia o barulho de respiração no quarto. Fica, eu abri um vinho.

Qualquer uma que tomasse o seu lugar seria uma substituta fraca. Amo você, com um amor tão grande que simplesmente não pode continuar crescendo no coração. As outras meu bem, são só as outras. Reciprocidade é quando um ri da risada do outro. Porque a vida é uma festa e estamos celebrando e transando. Estamos sorrindo, felizes. E quando o vinho acabar e eu olhar para você dormindo abraçando o meu travesseiro, já vou saber que a dança do lado de fora da janela é a comemoração deste momento.

Mas fica, eu abri um vinho.

2024/05/19

Dia 2545

 

Eu estava em uma praia e corria, mas não na areia. Corria, sei lá porque, sei lá pra onde. Só corria. No horizonte o infinito e no chão um caminho que não acabava. Eu jamais sairia daquela praia. Então acordei, ainda era escuro. Passava das três mas ainda não eram cinco. 

Levantei, lavei o rosto. Passei um café fresquinho. Um café amargo, um chocolate amargo mas um amor doce, por favor. Fiquei lembrando da praia enquanto o café pingava e dos rostos que apareceram. Que esquisito esse sonho, tinha gosto de saudade. 

Saí de casa, parei no meio da calçada e olhei para cima. O céu parecia grande e infinito. O que vem depois das nuvens, estrelas? Até onde vai essa imensidão? Era azul, branco, alaranjado lá no finalzinho. O céu é grandão e eu, pequenino.

Olhos diferentes têm visões diferentes. Tente, sempre que puder, enxergar o mundo por outro ângulo. Tente, sempre que puder, enxergar o mundo pelo olhar de outro alguém. Às vezes o mundo já é o mesmo a muito tempo que ficamos cansados, mas quando vemos pelos olhos de outro alguém, acaba sendo um mundo totalmente novo. 

Talvez nós estamos voltando a olhar a lua? Sentei no banco, acendi um cigarro e fiquei olhando as pessoas na rua. Estamos morrendo desde que chegamos e esquecemos de olhar a vista.

Voltei pra casa, pra minha cama. Já eram mais de seis. Quis voltar para a praia mas não para correr. Sentar, olhar o horizonte e pensar no mundo. E você, bem, você é meu mundo.

2024/05/05

Dia 2544

 


Quando você decidiu ir embora não perguntou como eu estava ou como me sentiria. Não quis saber como as coisas ficariam dentro da gaveta ou os espaços vazios do guarda roupa, da cama e da sala de estar. Os vácuos entre as fotos da estante e no banco do carona.

Quando você decidiu ir embora não quis saber porque as garrafas ficam sempre vazias e o cinzeiro sempre cheio ou, porque tem silêncio dentro de casa e eu não quero falar sobre isso. 

Quando você decidiu ir embora não se preocupou como ficariam suas caixas aqui dentro. Não fez questão de saber o que ficaria vazio e o que transbordaria. Em nenhum momento questionou o porquê da tempestade e onde estariam os dias ensolarados (...) Um dia seremos apenas fotos. Músicas escondidas em fins de playlists quase nunca selecionadas. Agora somos estranhos com memórias em conjunto.

Se não tinha intenção de ficar, porque fez esse espaço de morada? No final das contas, só procuramos por alguém que deite ao nosso lado em dias de chuva. E hoje, chove lá fora.

Esse texto não é sobre ir embora.

2024/04/20

Dia 2543

Entendi que me caracterizo dentro do conceito de solitário conhecido. As pessoas me conhecem, sabem meu nome e muitas coisas que fiz e faço. Ando nos lugares e as pessoas me param, perguntam como estou e dizem "que bom te ver". Mas quando chego em casa e coloco minha roupa na máquina de lavar é como se houvesse um precipício entre a lavanderia e a sala de estar. E fico ali, nu, entre dois mundos da qual não sei qual pertenço. 

Gostar de mim é perigoso, eu sou de verdade e isso assusta muita gente. É a intensidade de um trem bala misturada com o início de uma nascente. O que ninguém diz é que para toda nascente o fim é o oceano. Então transbordo em excessos.

Há uma diferença entre ser feliz e estar distraído da tristeza. Ultimamente tenho fugido, fingido, tentando aceitar, me direcionar pra outra rota. Um eterno esconde-esconde e espero que a solidão não me encontre. E se me encontrar, vai ser difícil a despedida. 

Eu tô de boa, só com saudade de uns tempos aí. Já vivi tantos recomeços que já nem parece a mesma vida. Parece que estou sempre preso no dia anterior do dia anterior. Do café só sobrou a marca dentro da xícara e de mim? Eu não faço ideia do que sobrou de mim. 

Bem vindo ao meu delírio. Aqui é confuso, esquecido, violento, dramático, romântico e ansioso. Respire. Não chegamos nem no meio do caminho. Acendi um cigarro, olhei pela janela e o mundo já não era mais o mesmo.

2024/04/09

Dia 2542


Orgulhe-se pela maneira corajosa com a qual lidou com os acontecimentos recentes. As batalhas silenciosas que você enfrentou e provavelmente perdeu. As lágrimas que você segurou e as que deixou rolar livremente. Você fez o que deu. Você fez o melhor que podia.

Eu desejo que você se cure dos machucados que te deram mesmo quando você ofereceu o seu melhor.

Perceba que o que também mata é você ficar tentando consertar as coisas que não foi você que quebrou, entende? Depois dos 30 você passa a entender a vida um pouco mais e começa a apreciar as pausas. E agora, neste momento, neste exato momento, é o tempo de uma pausa.

De forma alguma descarte essa tristeza. Abrace-a. Saiba que sem ela você não saberia desfrutar da tal felicidade. A solidão e angústia que a acompanham também são solidárias. No momento perfeito todas elas irão embora e ainda restará você. Ainda restará você. 

A sobra, o resto, o que ali ainda padeceu tentando se reerguer. A violência, o sexo e aquela tensão que jamais acaba. E por fim, o silêncio. O que vem subsequente ao silêncio é sempre o recomeço. Mas quase ninguém sabe apreciar o silêncio para identificar que está recomeçando. Você não precisa colar pedaços ou, tentar acha-los por aí. Você já está completo.  

Não precisamos viver um eterno buscar de não sei o que, não sei aonde. Está tudo onde deveria estar, e o que carece é apenas um sorriso. Aqueles que ficam genuinamente felizes por ver outras pessoas felizes entenderam tudo sobre a vida.

Cheiro de amaciante na roupa. Casa arrumada. Uma moeda na rua. Uma música favorita que toca na rádio. Um filme repetido. Cheiro de café fresquinho. E silêncio.