2020/10/07

Dia 2497


A porta bateu, ela entrou. Eu ouvia algum rock antigo dos anos 80/90 no rádio baixinho com letras que falavam de amor e segredos. O cheiro dela invadiu o carro e sem dizer uma palavra eu me apaixonei pela primeira vez, outra vez.

Eu pensava em tirar a roupa dela, eu pensava muito em tirar a roupa dela. Mas eu não conseguiria despir ela por inteiro sem antes ter despido toda sua alma. Absorver tudo que fosse medo, insegurança, raiva, mágoa e ressentimento que fosse dela em mim e transformar tudo isso em amor... Carinho. E foi nessa hora que percebi que havia me apaixonado pela segunda vez, outra vez.

Ela aumentou o som, olhou para mim e sorriu. O foda é quando ela sorri pra mim. Ela me ganha sempre. Nem conhecia a música mas depois de ouvir o refrão duas vezes, tentou continuar na terceira fazendo a segunda voz. E entre a primeira, segunda e terceira letra musical eu percebi que foi nesse momento que me apaixonei pela terceira vez, outra vez.

Em casa, troca de roupa e da risada. Prende o cabelo, deita no sofá e joga as pernas em cima das minhas. Tua voz, teu cheiro, faz tua presença ser morada. Faz piada, joga almofada, fica irritada, faz birra, pirraça, graça de novo. E infinitas vezes eu projetei ela na minha imaginação. E ai me pergunto, onde esta você agora além de dentro de mim? Essa foi a quarta vez, outra vez.

Ela respira no meu ouvido, sussurra baixinho que esta tudo bem e da pra perceber que ela fala sorrindo enquanto a gente se mexe juntinho. Ela aperta as mãos nas minhas costas, mas me abraça cheia de carinho. Ela transborda vontade, me afasta pra olhar no olho mas as pernas me puxam pra dentro dela de novo. Ela me beija, me beija e sorri. E esse é o gesto de amor mais bonito que eu já senti. Essa foi a primeira vez, outra vez.

2020/10/06

Dia 2496



Esse é grito seco, um pedido de socorro a todos aqueles que podem me ouvir. Um apelo simples mas verdadeiro. Mas lembrem-se, uma lágrima já começou com um sorriso. E é exatamente assim que começo esse texto: Sorrindo.

Foi muito, muito rápido. A luz da garagem acendeu, a porta o carro bateu. O motor ligou e logo em seguida o farol fechou. Eu não vi o farol fechar. Eu juro por Deus que eu não vi. Depois o silêncio, o vidro quebrado e a fumaça. É sempre um clichê de filme americano dizer que a gente vê a vida inteira passar diante dos olhos quando vai morrer. E naquela noite, então, eu morri.

Perdi a consciência por alguns segundos, acabei vivendo dois anos preso naquele silêncio. Comprando uma história, minha alma estava à venda. Perdi a consciência de novo. Tentei alcançar a vida com as mãos mas ela escorregou, passou entre meus dedos devagar. Eu acordei, vi o céu mais azul da minha vida ser o telhado do mundo inteiro. Fiz uma oração e fechei os olhos novamente.

Eu não reconheço mais as pessoas que eu convivo. São todos rostos estranhos e eu não me importo mais. Acho que não consigo amar mais ninguém. Perco a atenção sobre qualquer coisa, o tempo todo. É só mais um e-mail, mais uma ligação, mais um ponto a bater ás 18hs, mais um "débito ou crédito senhor?", mais um boleto, mais planos e planos que nunca saem do papel. Dizemos "é a vida" e essa é a expressão mais triste do mundo.

Hoje no farol não houveram pedidos de desculpas, declarações de amor, um abraço apertado, um beijo apaixonado, um carinho nos cabelos, uma gargalhada alta no meio do domingo entediado. Não houve tempo. E eu não consegui comprar mais. 

Ás vezes tudo que a gente precisa é um tempo simples, um gesto honesto cheio de querer. Ás vezes tudo que a gente precisa é um "ouvi essa música e lembrei de você", ou "vamos dar uma volta?" e ainda "levanta dessa cama, olha esse dia". Ás vezes tudo que a gente precisa é ouvir uma música do Charlie Brown, assistir um filme que revire nossas ideais e discuta sobre a imensidão do universo. Conversar sobre qualquer coisa sem sentido só pra fazer rir. Ilustrar o capitão gancho e as outras coisas. Tocar violão sem saber tocar, usar uma guitarra imaginária e um microfone para uma plateia de cem mil pessoas que não estão lá. Ás vezes tudo que a gente precisa é de companhia.

Hoje, um relógio parou e uma lágrima caiu.


2020/09/26

Dia 2495

Então, é isso. Simples. A noite silencia o mundo que é pra gente poder se ouvir. E eu que pensei que ela iria embora logo ficou até a manhã seguinte e quando percebi, era dia de novo. Você já conheceu alguém que fala tão bonito que espera que aquela conversa não termine? Que o silêncio constrangedor de elevador não apareça. Que ela fale de tudo, sobre o arroz queimado, a viagem de carro de quando era pequena, de como usa o filtro de café dobrado como se fosse uma técnica importantíssima em aromatizar mais o sabor quando a quantidade exata de água passa do filtro para o café, e do café ao bule.

Mas eu não percebi a hora que a língua dela estava dentro da minha boca e eu só estava pensando que queria que aquele momento durasse para sempre. O cheiro de shampoo no cabelo molhado, as coxas dela encostadas nas minhas, os dedos pequenos passeando pelo meu rosto como se estivesse me lendo em braile bem devagar e a respiração dela tentando se controlar com o batimento cardíaco.

Ai vem abraço, beijo, risada, conversa e choro. Quando pergunto porque, ela diz "Não tem porque, o problema é que uma lágrima puxa a outra". Ela não sabia explicar, eu não me importava tanto assim. Só queria que ali, naquele momento, ela encontrasse conforto, casa, lar, aconchego, segurança e qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor. A verdade é que eu estava disposto a gastar todo meu tempo, em todos meus dias para fazer ela se sentir um pouco mais feliz que fosse. Ela merecia isso, era a garota mais fodida que eu já tinha conhecido. Ela sabia disso. Eu sabia. O mundo não. E o mundo ás vezes é um lugar cruel demais para pessoas assim.

E lá estávamos nós. O vinho ficou mais roxo, a noite ficou maior e ela já não se sentia mais tão solitária. Ás vezes tudo que precisamos é que alguém apenas nos ouça. Sem dar a própria opinião, sem pensar em como ajudar, prestando atenção em cada palavra e esquecer o mundo lá fora. A chuva escorre na janela e enquanto ela poetisa sobre dois joelhos ralados e um dia incrível, eu fico ali sentado ouvindo ela falar bonito.

Deus, eu nunca te pedi nada mas se for possível... Não termine essa noite ainda. Ainda.



2020/09/20

Dia 2494

São 4:32 da manhã. Eu deveria estar pensando em me exercitar, em começar a caminhar, correr, me empenhar mais no trabalho e buscar uma promoção. Em comer menos carboidrato, pensar mais sobre produtos naturais. Ficar atento as noticias e aos e-mails de ontem que não respondi. Deveria estar pensando em investir na bolsa, abrir uma poupança, mudar de emprego, carro, celular, casa. Mas são 4:35 e eu só consigo pensar que não lembro a última vez que ralei o joelho ou senti o cheiro do mato. Que não lembro a última vez que gargalhei até a barriga doer ou que ouvi o barulho das ondas do mar quebrarem na maré cheia. Será o mal da nossa geração ou o alzheimer? Não sei, então, escrevo.
Ás 4:48 fiquei triste, olhei para o teto escuro procurando uma razão que me fizesse levantar. Me senti vazio, a cama vazia, o quarto, a vida. Faltou uma ponta solta, um lençol amassado, uma ressaca brava, um abraço apertado. Faltou um refrão cantado no farol, um "com licença" e "obrigado" ditos sorrindo. Faltaram horas no meu dia anterior, sobraram horas na minha madrugada. Onde enfiei aqueles 20 segundos de coragem insana Benjamin Mee?
São 4:52 e bocejei grandão. Lembrei de uma piada, uma roda de conversa, uma carta escrita a mão, uma saudade, o final de um sonho mas dai acordei e esqueci de novo. Quis gritar, mas o grito saiu abafado no travesseiro dentro da minha cabeça e no fim não emiti nenhum som. Quis chorar, mas meu choro se afogou nas lágrimas que nunca caíram. Quis correr dali, mas são 4:55 e eu nem levantei da cama ainda.
Queria ter 8 anos novamente e me apaixonar pela garota mais bonita da classe só para quebrar o coração pela primeira vez e ter o gosto de sentir algo pela primeira vez, outra vez. Coloquei cem metas para cumprir no primeiro dia do ano, cumpri com 3 e estamos em setembro, esqueci as outras noventa e sete. Fiquei orgulhoso três vezes, me decepcionei outras noventa e sete. Fiquei feliz e triste, mas a prioridade é manter-se sorrindo. 
5:00 em ponto. Desligo o despertador e penso que não há mais decepções. Então que se foda, hoje vou ser feliz.
 

Dia 2493

Esse é um rascunho sobre você. É sobre quando acordo e o primeiro pensamento que me vem e te dar bom dia, e ficar esperando uma mensagem sua ainda com voz de sono perguntando se dormi bem. É sobre quando acontece alguma coisa engraçada no trabalho e fico o dia todo querendo te contar, só pra ver você sorrindo. É sobre quando no meio de uma roda de amigos, durante uma gargalhada me vem um aperto no coração porque tudo que eu queria era estar com você, ou que você pudesse estar ali comigo. É sobre quando faço algo bobo ou algo incrível e só quero mostrar a uma pessoa, você. É sobre quando no meio da tarde, na correria da vida, me vem você na cabeça e no que deve estar fazendo. É sobre quando chega a noite e eu fico pensando, "com quem será que ela tá agora? Será que tá feliz?" É sobre ir dormir pensando no quanto gostaria que você tivesse logo ali no banheiro, se arrumando pra deitar comigo. É sobre acordar no meio da noite, desejando beijar você e lembrar que nem sei como é teu beijo e que você não tá ali do meu lado. É sobre querer que seja sobre nós juntos, e saber que não é.. nunca é. Mas por aqui, é quase sempre tudo sobre você. 



2020/09/06

Dia 2492


 Aos 70 anos de idade, seu coração já bateu cerca de 2,5 bilhões de vezes. Isso dizem os médicos e cientistas. Mas eles não avaliaram o meu, apaixonado. A saudade meu amigo, ela não bate, ela espanca. Chega uma hora que a gente cansa de apanhar. Então por isso eu queria falar sobre a noite passada, onde sonhei com ela. E eu tenho que dizer, senti saudade.

Ela me beijava, ela não estava esperando um beijo, ela me beijava mesmo. A maioria das mulheres esperam o beijo e sentem isso como se fosse um presente. Ela não, ela estava ali, de atitude e lábios me beijando. Transbordando desejo naquele beijo. Eu senti a presença dela, eu senti o teu gosto e teu cheiro. Acordei sorrindo, sentindo um cheiro de perfume que não estava ali, sentindo uma presença que não estava ali. Sentindo saudade mas essa sim, estava ali. Sorria quando nos afastamos. Quantas pessoas sorriem depois do beijo?

E quantas mulheres que beijamos que demonstravam tanto desejo por nós ao ponto de quebrar padrões e tomar atitude de fazer o que sentia vontade de fazer? Não sei você, mas comigo eu conto nos dedos e ela foi a única. Ela era a mulher mais fogosa que conheci e meu corpo queimava de prazer a cada beijo que ela me dava. Ela era a morfina de toda dor que um dia senti e a endorfina liberada a cada momento ao seu lado. Todo estímulo para o meu coração acelerar suas batidas e perder o ritmo.

Tenho me reconstruído todos os dias e confesso que não tem sido fácil. Principalmente quando a saudade decide voltar, porque sabe que ela não bate, espanca. E de tanto que meu coração bateu, hoje quis descansar e todos meus sonhos estão na UTI. Tudo é agora, hoje e basta um último suspiro e pronto. Tudo se vai e não tem mais volta. Tudo é agora e o agora já é tarde demais.


(Ft; M.E.-2020 - @umuniversointerno)

2020/09/05

Dia 2491

Garota, se a pessoa não entende nem suas poesias quem dirá seus silêncios. E ultimamente houveram silêncios demais, não é? Mas de repente, num dia qualquer acordamos e percebemos que já podemos lidar com aquilo que julgávamos ser maior que nós mesmos. Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos. São pequenos passos, todos os dias. E olhando para trás, que lindo foi teu caminho mulher. Porque em algum lugar, algum dia, você irá encontrar alguém que sonhou ter tudo aquilo que você é.

Acredito que toda mulher é como uma joia bruta esperando para ser lapidada. A qualidade da lapidação não apenas é fundamental para determinar o valor de uma joia, como dá brilho e beleza à pedra. E esse trabalho, esse empenho não se garante em um dia ou dois. Tem gente que passa a vida inteira tentando lapidar uma única pedra. Mas o resultado é tão lindo. A pergunta que fica é: Você é capaz de se empenhar para ver o resultado da sua joia depois de trabalhada no final?

Garota, espero que você encontre alguém corajoso o suficiente para entrar na sua tempestade, e que lhe respeite o suficiente para amar o tamanho das tuas ondas. Você é profunda demais para viver no raso. Espero que encontre alguém que mergulhe em você sem medo de se afogar e que te salve quando sua alma perder o rumo do seu próprio oceano. Alguém que desvende teus segredos e te leia como se fosse braile, percorrendo cada curva do teu corpo nu.

E esse foi meu último estrofe, cabendo pequenininho dentro do seu coração. Ja você, tu coube tão direitinho dentro do meu coração que talvez tu não tenha formato de gente e sim de amor. Garota, eu que já te amo tanto e nem te amo tudo digo baixinho entre as estrelas: Dorme bem, toma cuidado, eu te amo.

2020/08/19

Dia 2490



Desejo é a cobiça daquilo que esta logo ali, quase que podemos tocar mas não podemos. É como se pudesse estar se vendo mordendo lençóis por ai em qualquer cama mas basta uma palavra errada e você esta no quarto cansada, molhada e sozinha. Já eu? Nunca fui do tipo que gostava muito das pessoas. Não procurei me envolver e nem conhecer. Sempre fiquei na minha, estagnado como um trem que chegou ao fim da linha. Mas você, você eu gostei. E é tão idiota isso, que dá vontade de dar a marcha ré e trilhar um novo caminho. Porque assim tão de repente aparece alguém que te tira o ar. E mais tarde, o chão.

Sabe quantas garotas eu levei para cama? Muitas e em todas elas eu só via o seu rosto. E eu repetia a mim mesmo "Beije ela como se seus lábios fossem perder o controle, mas também beije-a devagarinho". Não havia lugar mais seguro do que entre as suas coxas, eu estava em casa. I Put A Spell On You da Annie Lennox tocando baixinho, sabia que eu me amarro na batida do piano dessa. O barulho do ventilador, o cinzeiro gelado, a fumaça da xícara esfriando em cima da comoda de marfim claro do quarto e seus cabelos caídos sobre meu braço e ali, fogo. Meus dedos dedilhavam seu corpo, quase como se eu estivesse fazendo uma pintura a dedo e você a minha tela favorita. Minha barba deslizando sobre seu ombro enquanto te falo meias verdades sobre o que acontece agora.

Estive dentro de você, preenchendo qualquer tipo de vazio e respirando seu ar. Sentindo seu gosto, enfim. Dando absolutamente tudo que você queria e pedindo que aquele momento não acabasse, mas sempre acaba. E a gente sempre quer mais. E a gente goza, ri, chora, goza outra vez. Se olha, pensa que é pra sempre. Promete que é. Quer que seja, mas dura só mais uma noite, um dia, uma semana, um mês. Amanhece e estamos sozinhos outra vez. As chaves do carro, o troco do café da manhã e seu gosto em mim. Bato a porta devagar para não te acordar. Quando acordar, espero que aperte os lençóis lembrando de mim em você. Paro o carro na próxima esquina, quero voltar e ao abrir a porta você estar lá. Mas você nunca esta. É fumaça e fogo e quando menos espera, queima. 

Mas se me ligar e dizer que vem, eu preparo o mesmo quarto e a mesma cama. Me conta mais dos seus segredos, me confessa seus desejos mas quando a luz apagar a ideia é só levantar no amanhecer. Mas se eu te ligar, você vem?

2020/08/16

Dia 2489

 O último que sair apaga a luz, mas conta uma história antes.
A minha é essa: Quando eu era criança costumava girar e girar no mesmo lugar, depois deitar no chão. O mundo inteiro rodava e parecia que eu estava caindo. Caindo pra cima. E quando tudo parava, só restava o silêncio e a imensidão do telhado do mundo inteiro lá no alto. Não sabia, mas ali eu estava feliz.
Eu olho o céu toda noite mas já faz muito tempo que não encontro silêncio em meio a esse monte de letras tropeçadas tentando escrever alguma coisa que fizesse sentido. Para mim. Para você. Quando escrevemos algo, nunca sabemos quantos corações vão ler aquilo. Mas sei que escrevi esse texto cruel demais para ser lido rapidamente afinal eu quis sempre dizer mais coisas e desde que criamos a noção de tempo, a espera nos mata.
Espera. Fico aqui sentado esperando você me dizer qual vai ser a hora que vai quebrar meu coração. Porque no fim do dia continuo sem saber seu CEP, qual seu cheiro, qual seu gosto e se prefere andar de pijamas ou de calcinha e camisetão descalça nas noites de verão. Se eu deveria discar seu número e dizer que estou indo e ainda se o grave da minha voz arrepia os pelinhos do seu braço.
Fico preocupado se quem beija seus lábios esta reparando no desenho que eles tem e em como é fácil fazer você sorrir. É realmente fácil, você gosta de palavras pequenas, elogios simples, inesperados e sinceros e piadas instantâneas com um pouco de sarcasmo. Mas só um pouco. Fico preocupado também se quem segura sua mão sabe que esta segurando meu mundo inteiro. Ainda, fico preocupado se quem toca seu corpo se importa em fazer isso ser perfeito.
É a coisa mais maravilhosa e terrível que pode acontecer com a gente. Como se só houvesse a escolha de nadar ou se afogar. Você sabe que encontrou algo incrível e quer levá-lo consigo para sempre. Um segundo depois de ter aquilo, fica com medo de perder. Essa coisa, essa coisa bonita que todo mundo quer é a dúvida mais gostosa de se ter. Mas moça, você não sabe quantos sorrisos eu dei hoje só por lembrar de você. Pode não saber mas aqui estou eu, caindo de novo pra cima e pode acreditar... Feliz.
Se isso tudo é verdade? Você nunca vai saber. E no fim, eu deixo a luz acesa só para ver você sorrir mas, me conta uma história antes?
E daqui 50 anos alguém ainda vai falar o seu nome. E vou lembrar de quem é. E vou sentir saudade.


2020/08/06

Dia 2488

Se eu fosse escrever uma carta sobre minha vida seria meio um manifesto raivoso, meio uma carta de amor. Passei anos difíceis aprendendo que a vida é boa, embora tenhamos momentos ruins. Momentos durante o dia, a semana, o mês, o ano, sim. E assim como peças de dominó caindo em sequência sem o desenho ter terminado, a vida para mim é aquela vontade de começar um novo desenho colocando a primeira peça novamente de pé.

Hoje é 06 de agosto. Acordei com vontade de transar. De gozar e sentir aquele relaxamento que vai até o dedo do pé. Depois passar um café fresco e apreciar o cheiro do pó desfalecer na água quente. Tomar um banho e de cabelos molhados ir ao mercado, comprar flores novas e coloridas para o vaso da sala. Ficar parado dois minutos a mais no farol só para terminar de cantar o estrofe daquela música do Marrom 5 que fala sobre domingo de manhã.

Colocar a chave sobre a mesa e tirar os sapatos. Pisar descalço sobre o tapete fofo e confortável. Contrair os dedos e ligar a tv para assistir qualquer programa aleatório. Pegar no sono, acordar 9 da noite. Ficar na varanda fazendo amor com a noite. Pensar nela, mas ta chovendo dentro dela, quase que um temporal.

Beije-me. Se você vai partir meu coração, este é um bom começo. Não me dê espaços. Espaços são ruins e tristes. É o vazio que machuca a alma. É o procurar e não achar algo que estava logo ali, como a sensação desesperadora que é não conseguir lembrar de um pensamento recente, ou uma palavra fácil. Já é o fim do dia. O foda é o fim do dia, cara. E aqui estou eu, colocando novamente a primeira peça em pé.

2020/08/01

Dia 2487

As pessoas mais solitárias são as mais amáveis. As mais tristes tem o sorriso mais bonito. As mais sofridas são as mais sábias. Tudo porque elas não desejam que outras pessoas sofram o tanto quanto elas sofreram. E eu? Bem, eu sou aquele cara que escreve sobre pessoas ferradas e hoje é sobre você.
Li por ai que: "Se um poeta se apaixonar por você, você nunca morrerá". Bendita a hora que comecei a te escrever. Era definitivamente a garota mais ferrada que eu já conheci. Mas tinha um gosto especial, uma mistura interessante de rock dos anos 90, filmes dos anos 80 e com uma doçura que nem sabia que existia fora dos livros. Sorria bonito, quantas pessoas você conhece que sorriem assim? 
Tinha um ar de mistério, dançava com a lua e fazia amor com as estrelas. Era livre, mas tinha uma necessidade absurda de se provar. De se importar demais, de se auto sabotar mais ainda. De se confirmar e ser confirmada. Uma ânsia de mudança que não entendia e por fim, era seu próprio quebra cabeça.
E tinha uma tristeza, mas essa tristeza já era de casa. Entrava sem bater, remexia tudo sem pedir permissão e ficava o tempo que bem entendia. Ela estava perdida no paraíso mas sem o coelho de Alice. Conseguia ser a dúvida mais gostosa que eu já tive.
A gente sempre pensa que não vai conseguir, que não vai ser forte o suficiente. Que não vai dar. Que não vai aguentar, que o mundo vai cair e que a gente vai desistir. Tentamos, mas é difícil então tentamos mais um pouquinho. A gente só esquece de ver o quão forte já fomos e se você não enxerga isso agora esta tudo bem. Eu só preciso que saiba que hoje, com dor e todo amor do mundo eu pensei em você. Então escrevi.


2020/07/25

Dia 2486

A gente ri, sorri, brinca, faz piada mas pra quem vê do lado de fora nem imagina que por dentro a gente ta quebrado. Vários pedaços espalhados como se fosse um grande boneco de lego que acabou de cair no chão. Ninguém quer juntar isso. Por isso, gostaria de ser como essas pessoas que tem cinco minutos de coragem insana, largam tudo e vão aproveitar a vida. Parecem felizes, mas felicidade é relativa. Tanto de pessoa para pessoa, quanto para o próprio individuo. Entende? No fim, nunca estamos completamente felizes porque temos a ilusão de que felicidade é um sentimento quando na verdade é a contradição de querer guardar um momento para sempre. A felicidade que ali estava, depois de um tempo nos acostumando com ela acaba deixando de ser felicidade e se torna lembrança. É nessa hora que começamos a buscar um novo ponto de felicidade, seja em alguma coisa, lugar ou pessoa. Idiota quem pensa que esta feliz. Porque você é, naquele momento. E no conjunto de momentos que o seguem na busca da própria felicidade.
Nos meus pedaços quebrados existem muitas lembranças de felicidade. Então, se algum dia me perguntassem se fui feliz na minha vida a resposta é: sim. Eu não sou feliz quando o pneu do meu carro fura ou quando esqueço as chaves de casa. Mas sou quando o bule apita no fogo dizendo que o café esta pronto e quando a brisa de vento inesperado me faz carinho quando passo pela porta da frente. Tenho a convicção de que a felicidade é uma sequência de lembranças momentâneas e imediatas que permanecem e não são esquecidas no primeiro fragmento de memória apagada ou substituída por uma nova.
Colocando cor ao que eu quero dizer, já senti seu cheiro em todos os lugares, até mesmo quando passei por aquela esquina ao lado do bar que tanto gostava. Meus pulmões se encheram mas se esvaziaram, assim como meus olhos. Você não estava lá. Mas como um mal hábito, o sorriso quis sair disfarçadamente pelo canto da boca. Me segurei ali, naquele momento,  porque estava feliz e quis desfrutar disso ao máximo. Não sabia quando aconteceria novamente, ser feliz.
Mas amor, essa tal de felicidade não me impressiona mais porque já sei de cór. E se não for pedir demais, me abrace.

2020/07/15

Dia 2485

Eu cresci vendo minha mãe fazer companhia para o meu pai, sempre. Quase todo dia eu presenciava a mesma cena, quando era perto da hora dele chegar do trabalho ela preparava a janta e tentava deixar tudo em ordem mesmo sendo difícil com 4 filhos em uma casa de três cômodos. Ele chamava no portão e eu era o primeiro a correr. Ela vinha atrás com as chaves. Sempre tinha uma camisa xadrez acompanhada da cara de cansado dele. Uma bolsa que cheirava a óleo de motor de caminhão com graxa e dentro a velha marmita. Ele fazia um carinho estranho na minha cabeça e dava um beijo na minha mãe. Era do tipo que não sabia se expressar direito. Meu pai estava sempre cansado, acordava na madrugada e trabalhava pesado o dia inteiro. Mas mesmo assim a minha mãe ficava feliz quando ele chegava, dava pra notar. Quando já era o final do dia e cada um de nós já estava caindo de sono um pra cada lado, minha mãe passava um cafezinho fresco pra ele e conversavam um pouco enquanto ela lavava a louça antes de irem deitar.
Naquele tempo eu não entendia que aquilo era amor. Mesmo no fim, antes dele morrer minha mãe nunca saiu do lado dele. Mesmo com os muitos defeitos que ele tinha, ela nunca foi embora. Mesmo com as brigas, desentendimentos e discussões, ela nunca partiu. Eu nunca vi nenhuma mulher igual minha mãe e a admiro muito por isso, embora não consiga expressar tanto quanto gostaria. Sempre foi muito inteligente e era bancária antes de decidir ter filhos. Abandonou tudo para fazer café no fim do dia ouvindo um breve relato de como tinha sido o dia do meu pai. Naquele tempo eu não entendia que aquilo era amor.
Fazem mais de dezoito anos que meu pai morreu de câncer. Até hoje quando visito minha mãe, ela comenta algo sobre ele cheio de carinho e saudade na voz. E até hoje, ela nunca procurou mais ninguém. Diz que esta esperando ele, isso porque ela não tinha nem quarenta anos quando ele se foi. A gente não sabe quando o relógio dela vai parar e pra ela não interessa. Ela vai continuar esperando sozinha para estar junto dele. Meu pai foi e é o grande amor da vida da minha mãe. E até hoje eu não entendi que isso... Isso é amor.
A gente já conhece a história, mas lê de novo esperando que o personagem tenha amadurecido. E olha que estou falando agora de mim mesmo. Eu tentei desde meu primeiro relacionamento fazer com que cada mulher que esteve comigo fosse o grande amor da minha vida. Algumas foram, outras não. Algumas por culpa minha, outras não. E hoje estou eu aqui, toda manhã pedindo os 6 pãezinhos mais brancos do cesto porque ela gosta assim. Passando um café fresco para acompanhar. Talvez essa seja minha maneira de dizer "Bom dia, eu te amo" todos os dias porque assim como meu pai, eu também não sei me expressar direito. Eu sabia, antes. E agora nesse momento poderia dizer que a vida me deixou mais duro com o tempo ou, meus relacionamentos passados que tiraram essa gentileza e carinho de mim. Mas não, foi apenas eu mesmo que fui enrijecendo com o tempo e congelando partes bonitas que eu tinha. E porque, né? Que direito eu tinha de diminuir o cuidado e atenção no segundo relacionamento quanto ao primeiro? Ou ao terceiro? Ou ao último? Que direito eu tenho de revogar algo que ás vezes nem eu mesmo dou?
Foi nessa parte que eu entendi que a minha boca ficou virgem de sorrisos. Que meus braços não estavam amarrados e eu poderia abraçar mais. Que eu tinha o direito sim de reclamar sobre meu dia no trabalho mas no fim deveria perguntar "mas como foi o seu dia?". A gente esquece dessas coisas. Se acostuma com a presença do outro e isso é errado. Todos nós estamos nos recuperando de algo. Só existe o agora. Porque quando o outro não pode estar mais aqui, o que sobra? -A saudade. E a conta da saudade, quem é que paga?

2020/07/10

Dia 2484

Alguém, algum dia te colocará em silêncio. Porque de alguma forma para você essa verdade importa. Essa verdade sobre o seu silêncio dizendo tudo que a outra pessoa precisa saber. Acho que isso deve ser amor, ficar em silêncio ao lado de outra pessoa e não ser constrangedor.
Mas se você esta nesse exato momento deitada no sofá da sala, em silêncio com as pernas em cima das dele olhando seja la o que for que ele esteja fazendo e pensando nas palavras que eu disse mas não fazendo nenhum sentido para você, tenho que dizer: talvez você esteja indo do lado errado da estrada.
Há muito tempo estive do lado certo da estrada. Era uma mistura das letras do Pearl Jam com os clipes do Beastie Boys. Era incrível, eu conseguia ver as luzes da cidade e parecia ser a coisa mais linda do mundo. Me sentia alto, tão alto que conseguia alcançar o céu e adivinha só? As nuvens não são de algodão. Decepção não existia, só tinha gargalhada, risada, afago...
Ela reluzia naturalmente, queimava comidas, explodia os microondas da vida, caia pelas moitas, adorava pipocas e paçocas, tratava com ironia, chorava com filmes, livros e séries, brigava com a mãe, não ligava pros caras, adorava cor de rosa, era o xodó da avó, ela era inteligentíssima ainda que lerda para piadas, ela era linda, tinha conteúdo forte, sem papas na língua, e mesmo com a sua vida conturbada, ela simplesmente... Brilhava.
Um dia eu parei em meio a estrada e tinha uma garota. Ela tinha um silêncio lindo, lindo de se ouvir.

2020/07/01

Dia 2483

Certa vez eu ouvi uma história sobre um casal onde a mulher adorava colecionar xícaras de café. O homem por sua vez odiava esse hobby, até quebrava algumas e dizia ser sem querer. Conforme o tempo passou o relacionamento terminou não por causa só das xícaras de café mas, mais que os gostos que deixaram de combinar ou nunca combinaram, as pessoas ali deixaram de fazer parte de uma coisa só. Os sentimentos, eu acho, deixaram de combinar.
O tempo passou e cada um seguiu seu caminho. Mais adiante a mulher acabou se relacionando novamente e obviamente as xícaras foram um dos assuntos. Ao saber disso o novo namorado apareceu na casa dela com madeiras, pregos, lixas e um martelo. Fez uma linda estante bem no meio da casa do chão ao teto para colocar todas as xícaras da coleção e mostrar a todas as visitas que ali fossem convidadas a entrar. Observando essa história vemos que tudo em um relacionamento se baseia em apenas uma coisa: Prioridades.
Para todas as mulheres que já amei, tenho que ser bem sincero que eu não entendia. Então, me desculpe se em alguma hora você se sentiu sozinha. Eu não entendia que deveria priorizar a sua companhia. Me desculpe se em alguma hora você não se sentiu completa. Me faltava maturidade para priorizar que eu deveria ser o pedaço que faltava. Na verdade me faltou maturidade para muitas coisas. Me desculpe se em alguma hora você precisava ser ouvida e sentiu como se gritasse em um eco enorme. Eu não compreendia que era importante priorizar te ouvir mais. Me desculpe se em alguma hora você precisava desabafar e eu não estava lá. Me faltou discernimento para decidir priorizar ficar. Me desculpe se em alguma hora eu deveria ter sido mais sensível com você. Me faltou delicadeza para entender priorizar como as coisas deveriam ter sido tratadas mais suavemente. Me desculpe se em alguma hora você não foi compreendida. Me faltou paciência para entender que deveria priorizar as suas dores ás minhas. Me desculpe se em alguma hora você não se sentiu amada. Eu não sabia na verdade o que era o amor.
Quem sabe se fossem a dez, vinte anos depois dos nossos encontros as coisas dessem certo porque eu estive na estrada aprendendo a ser um pouco mais companheiro, amigo, ouvinte, amável e paciente. Mas se eu disse "eu te amo", por favor acredite. Não importa se durou semanas, meses ou anos. Eu sempre priorizei ser intenso não importa o tempo que durasse. Eu, por fim, te amei. Amei tanto que até doía, no físico mesmo. Alguns amores doeram mais que outros mas a gente nunca esquece. As lembranças vão se fragmentando no tempo até restar apenas uma sensação gostosa de não sei o que misturada com não sei onde e com não lembro quem. Essa fração de segundos tendo esse sentimento se resume no mais belo momento chamado saudade.
Hoje estou a milhas e milhas distantes pensando em montar a minha estante de xícaras e saiba que onde você estiver, estou mandando vibrações positivas e muito amor. Espero que estejas bem e saudável. Que tenha encontrado alguém que te faça sorrir bonito dentro do carro e te arranque gargalhadas no sofá da sala. Eu espero de verdade que seu coração esteja cheio, transbordando e inchado de harmonia. A ponto de explodir e quando explodir, vamos sentir de novo aquela fração de segundos. Um sorriso discreto no canto da boca, uma respirada funda, olhos fechando.
1, 2, 3... Você esta ouvindo?

2020/06/19

Dia 2482

Eu vim de uma família simples. Minha mãe me ensinou desde cedo que se algo quebra, não jogamos fora. Nós concertamos. Isso foi sempre assim, desde os meus brinquedos, minha xícara de café favorita até as pessoas que eu amei. E aqui estou, quebrado. Muito prazer.
Queria saber como começar na primeira linha. Já saber o que dizer e fazer você ficar no primeiro estrofe. Querer desvendar o que vem até o ponto final. Mas sei que assim como eu que esta voltando aos poucos, você esta tentando começar de novo. Esta juntando seus pedacinhos um pouco por dia até se refazer de novo e quando isso acontecer você vai ter medo. Porque a gente não sabe o que fazer. Exatamente como eu nessa próxima linha. Tudo isso e eu só queria te dizer algo que fizesse sentido.
(Respire fundo)
E se você se imaginou respirando fundo agora, sorria. Isso mesmo, ficou ótimo. Estamos tentando nos concertar todos os dias. Quem dera tivéssemos alguém para nos fazer uma xícara de café para nossa cabeça, isso nos animaria. E você sabe, bem, isso esta na letra da música de alguém. É, alguém esta escrevendo uma música agora mesmo. Falando sobre nós dois e como podemos rir sobre as coisas bobas e simples. A letra tem refrões pequenos, pequenininhos assim como os gestos de carinho que mais importam. Ao mesmo tempo é engraçada como a sua risada. Mas por outro lado é triste e solitária como a nossa saudade.
O café esta frio, droga, esta frio. A vida é muito curta para cafés frios. Mas se você vier eu passo um café fresco agora mesmo. Ficaremos os dois sentados no sofá enquanto a luz entra pela janela da sala, refletindo na fumaça que sai da xícara fazendo desenhos no ar. Existe um silêncio mas não é constrangedor. Há uma estranha necessidade de deixar as coisas acontecerem porque se tentarmos controlar, estragaremos.
(...)

Você me fala como adora balões coloridos, balas de açúcar e andar de camiseta, calcinha e meia pela casa quando esta sozinha. E eu digo que sempre pensei que adoraria viver perto do mar. Viajar o mundo sozinho e viver minha vida mais simples. Eu não faço ideia do que aconteceu com esse sonho. Você me fala sobre a sua viagem favorita e como sente saudade de se sentir livre de verdade. Ri dizendo histórias que sua cabeça criou no último segundo. E amansa a voz ao dizer como esse mundo é injusto. Eu lembro de uma música que combina com você e tento cantar um trecho mas não consigo. Falo empolgado uma lembrança da infância e olho para o relógio, não quero que vá embora. 
Estamos aqui concertando um ao outro, um pouquinho por vez.