2024/12/28

Dia 2559

Você nunca encontrará a mesma pessoa duas vezes, nem na mesma pessoa. Somos feitos de destroços do que um dia foram nossos sonhos, somos uma colcha de retalhos, de quadros que já não fazem mais sentido. Somos suturas mal feitas e sangramento não estancado. Somos falhos, doloridos e reais. Somos a continuação de um fim, de ciclos, de dores, de amores. Continuamos, mesmo quando sentimos que não exista mais motivos para. 

Cuide bem enquanto der, mas cuidado. Às vezes o gelo da pessoa não combina com o seu calor.

É bem provável que você ainda se apaixone umas cinco vezes durante o restante da sua vida. Chore por “amor” algumas tantas outras. E diga “Eu te amo” para alguém em alguns momentos. Mas, sempre haverá uma pessoa, não uma simples pessoa. É aquela bendita pessoa, que vai te fazer perder o sono, ouvir músicas estúpidas, sorrir para o cachorro Pit Bull do vizinho, ler piadas para saber como fazer tal pessoa rir, assistir filmes que não gosta, e aprender a cozinhar. Não é uma tarefa fácil. Até porque, estudos comprovam que não é sempre que ficamos com quem amamos de verdade. De qualquer modo. Cuida dessa pessoa direitinho, aproveita cada bobagem. Vale a pena.

2024/12/21

Dia 2558

E nos piores dias, os melhores entardeceres. É um afago do universo tentando nos acariciar assim, de leve, como se fosse um abraço aconchegante. Seguro. 

Você será lembrança, meu amor. Hoje não, mas um dia será. Será um fragmento de um momento guardado com carinho, sem começo ou fim. Apenas o meio da memória repartida no tempo, que perdeu pedaços pelo caminho. Sobreposta dentre tantas outras lembranças sem importância. Lutando para ficar, mas, esvaiando como nuvem no céu quando o vento bate forte.

E no fim tudo o que te restará serão lembranças minhas. Nossos momentos que já não podem mais se repetir, elogios sussurrados enquanto estávamos juntos na cozinha, meu sorriso enquanto te olhava nos olhos. E talvez você sinta minha falta, assim como eu sentia a sua enquanto estávamos juntos.

Algo pequeno, quase tímido, mas que ainda está ali. É minha presença quase esquecida em cada palavra. Como se houvesse todo tempo do mundo. Tempo. Hoje essa palavra soa até engraçada, pois olha quanto tempo, o tempo nos levou. 

É bom conversar com alguém que conversa com você. Que te ouve, que entra na sua alma, que te ajuda a gritar o que nem sabia que precisava ser dito. Criamos tantas expectativas sobre o outro que esquecemos que são apenas pessoas frágeis, falhas, caóticas e em construção. 

Mas esquece tudo. Já parou para olhar o entardecer hoje? Está lindo.

2024/12/12

Dia 2557

 

Não sangrou, então ninguém percebeu quando eu morri. E eu já morri algumas vezes. Morri em 1999, em 2001. Morri de novo em 2010, 2011, 2012, 2014, 2015 e 2016. Morri também em 2019 e 2023. 2024. Mas ninguém está realmente sabendo disso e até se importando tanto. Um tanto faz, com "e daí?".

Cicatrizes que ninguém vê. Lágrimas que não molham. Feridas que não sangram e gritos que ninguém ouve. Eu era tão novo, tão animado. Que vontade de me pedir perdão, Deus!

Aprendi a não pegar o que não é meu. Eu entendo sua dor, eu realmente sinto muito, mas ela é sua e só você pode se salvar. Eu posso te ouvir, posso te dizer o que realmente penso, mas sua vida só muda quando você muda. O paraíso morre quando você fica triste. 

A gente se mata todos os dias em dose conta gotas de suicídio não violentos. Morremos um pouco quando deixamos de ser quem gostaríamos. Quando silenciamos as nossas verdades, quando amamos e não somos amados, quando os vícios se tornam os melhores momentos, quando fazemos as coisas por obrigação e não por vontade. Morremos. Esse é o dia que perdi minha voz. Pagina 64, de um livro qualquer. 

2024/12/10

Dia 2556

A você, todo meu amor. 

Um banho quente, meias confortáveis. A boa e velha xícara de café pela metade. A janela da varanda aberta, a cortina esvoaçando para fora. As roupas na cadeira do dia anterior. As chaves da casa, do carro e do coração em cima da mesa. 

Eu estava lá quando começamos. Eu estava lá quando terminamos. Eu estava lá quando recomeçamos. Feliz do homem que tem o céu e o inferno dentro da mesma mulher. Não haverá tédio, rotina, mesmice e fadiga. 

Eu era capaz de carregar o teu universo e viver contigo todas as suas dores antes do café da manhã. Mas parece que não era o suficiente e você queria mais. Um mais que não pertencia a mim te dar. 

Daqui eu só torço pra que seja feliz, e encontre tudo aquilo que faz seu coração brilhar. Você merece o lado bom desse mundo. Odeio ter que colocar pontos finais onde eu claramente queria escrever um livro gigantesco. 

Me envie uma mensagem caso deseje ser escutada e talvez te faça rir um pouco. E quando for embora, me avisa assim que chegar? Que você não precise mais chorar, pequena.

2024/12/08

Dia 2555

Carta aberta ao que restou de mim.

Na busca incessante de ser, acabei me tornando o que não deveria ser. Na ânsia de me moldar as expectativas, abandonei o que me fazia único. Meu riso perdeu a espontaneidade, meus passos ficaram mais pesados e minha essência virou um eco distante sufocado pelas camadas que criei para me proteger. Eu quis tanto ser aceito que me rejeitei. Fui tão longe tentando agradar que me perdi no caminho.

O reflexo no espelho já não conversa comigo e as conquistas que antes pareciam tão importantes, agora não passam de troféus vazios. Quem sou eu além das aparências? Quem sou eu sem máscaras? Talvez a resposta esteja no silêncio que eu sempre temi. No ato de parar e encarar a verdade, pra ser quem devo ser preciso me desaprender quem me tornei. Preciso voltar ao início, onde minha essência sabia o que era viver sem medo. Talvez na desconstrução eu me encontre novamente. 

Queria ser a pessoa que não se importa. Não ser a pessoa que finge não se importar, porque eu me importo. Me importo pra caralho. Não sei fingir que não está acontecendo e que não me abala. Que sou a prova de balas. Eu não sou. Vou ver acontecendo e querer abrir a cortina, pra que você viva mais intensamente. Pra que fique bem. E eu? Eu fico para depois. 

Não é martírio, apenas as coisas foram acontecendo e eu fui deixando, até ficar fora de controle. E quando fui ver estava eu no alto da montanha, mas eu não queria pular. A chaleira apitou, o gato miou e a porta se abriu. Nada mais era como antes.

2024/11/09

Dia 2554

5 minutos sozinho com a minha mente e é o próprio caos acontecendo. A junção de vários restinho de momentos que aconteceram, ficam assim, me esmagando como se fossem uma sequência interminável de atropelamentos de trem passando por cima de mim. Por cima de mim.

A metacognição tem me pesado bastante. Futuro e passado já nem se relacionam mais, mas cada um com seu peso me deixa sem ar. Acordando todo dia com culpas de ontem, de hoje e culpas de dias que ainda nem vieram. 

Eu me sinto estranho. Às vezes sinto muita vontade de ficar sozinho, mas sinto falta da companhia. Sou um cara muito feliz, mas às vezes minha mente me massacra com várias coisas tristes.

Algumas vezes fico brigando comigo mesmo, porque na minha cabeça eu fico me auto cobrando porque estou cometendo os mesmos erros do passado. Tenho vontade de me fechar para o mundo, mas também quero que todo mundo se abra comigo quando precisar. Eu me tornei tão estranho que aconselho as pessoas a não abandonarem as amizades. Mas eu mesmo raramente consigo manter alguém por perto por muito tempo.

As pessoas que conhecem meu lado bom, se encantam. Mas quando conhecem o lado que eu escondo, se assustam. Acho que a história do solitário conhecido se encaixa perfeitamente. As vezes, nem eu mesmo entendo. Eu sou um cara poeticamente triste, mas que está sempre sorrindo. 

2024/11/02

Dia 2553


Eu estou preparado. Dormi o suficiente à noite passada e sem pesadelos, estou relaxado. Sem pesadelos. Me mantive focado por um longo período, foquei no objetivo. Desliguei os aparelhos e minha mente está leve. Tranquila. Minha respiração está calma e meu corpo está em estado de espera. 

Não tenho distrações ou desvios de atenção, estou concentrado. Meu coração está sereno, em paz. Estou pensando em um ponto fixo e não em extremos. Eu sei a minha missão.

Pela primeira vez eu sei o que preciso fazer. Estou preparado. Pronto para cumprir minhas funções da melhor forma possível. Eu estou focado apenas no essencial, alheio a todo resto. Só vou tomar decisões pragmáticas. Não vou me permitir distrações levianas, não vou me permitir pensar em coisas não importantes.

Eu não vou depender de ninguém nem de nada. Não vou estar sujeito a erros. Sorriso sempre no rosto, mas é teatro e eu fico ansioso para sair dessa cena. O futuro é incerto mas não estou preocupado. 

Eu vou viver. Eu vou amar. E eu vou morrer. A gente se acostuma com a dor. A gente se acostuma. A gente se adapta a praticamente a qualquer coisa... Desde... Que... Haja... Rotina. Não é? A mente humana anseia por rotina. Precisa dela. Mas se a gente tirar isso, é aí que começamos a enlouquecer. Quando não há mais dia, nem noite, nem comida, nem água, nem padrões. E sabe o que é loucura? Mesmo sabendo o que acontece, racionalizar não ajuda em nada.

As pessoas acham que tortura é dor. Não é dor. É tempo. É o tempo de lentamente você perceber que sua vida acabou. Agora só te resta o pesadelo. E você e eu temos tempo, não é mesmo?

Eu estou preparado.

2024/10/22

Dia 2552

Mas, apesar da estranheza inicial do primeiro toque e primeiro beijo, tudo se encaixou como peças de quebra-cabeça. O seu corpo encaixou no abraço, o seu colo acolheu como nenhum nunca fez igual e o seu cheiro penetrou como um perfume feito de propósito para aquele momento.

Ninguém está pronto para mostrar suas fraquezas novamente. Os dois, numa cafeteria, domingo à tarde. Os olhares se encontram entre os goles de café e "adoro quando você sorri" sai pronunciado assim, sem querer. Isso aquece por dentro e transforma o momento. Aposto que é uma ótima lembrança. Quando a gente recebe amor, parece até errado. 

Você merece alguém tão bobo ao seu lado que não consiga evitar de sorrir só de olhar para essa pessoa. Que te enxergue no deserto. Afinal, quem é você no deserto? Ou, quem é você quando quem você ama, está no deserto?

O que eu faço quando nem o silêncio faz silêncio?

Quem te largou no meio do oceano não tem direito de saber o que aconteceu entre você e os tubarões e muito menos como você conseguiu chegar à praia.

Somos um montão de caos e algumas alegrias. Precisamos dessa catástrofe por dentro para nos sentirmos vivos ao menos uma vez. Esteja com a pessoa que te resgatou do deserto, que te dê oceanos e que respeite o teu silêncio. Mas, acima de tudo, que esteja lá.

Um beijo, um sorriso, um toque. É tudo que temos. Então temos muito. Um texto gostoso demais para ser lido rapidamente.

2024/09/09

Dia 2551

 

Comecei um texto, apaguei duas linhas. Não quis mais escrever. Não consegui organizar o que queria dizer. Fiquei pensando que o que eu queria dizer não deveria ser dito. Me afoguei nas palavras. 

Poderia ficar me lamentando pelas horas a seguir, mas olhei a janela e o dia estava tão lindo. Era convidativo ir viver e que se foda a tristeza e solidão. Eu não precisava dessa mágoa e desse peso. Não dava pra ser covarde.

Te liguei e perguntei o que faria no fim do dia. Respondeu sorrindo na fala que iria me encontrar, mas teria que pedir. Não é gostoso? Quando a nossa pessoa preferida fala sorrindo? É encantador. Às vezes o bom dia é uma pessoa. 

A gente ama quem escolhe ficar e guarda ressentimento de quem não quis. Mas o jogo vira quando nós precisamos partir, assim como as pessoas do passado tiveram que sair de nossas vidas. Apenas na dificuldade de necessitar ir embora, que conseguimos compreender o quão complexo é o partir. Não é sobre o que se foi, mas sim sobre o que tomou o lugar como substituto: a saudade.

Comecei um texto, apaguei duas linhas. Não quis mais escrever. Não consegui organizar o que queria dizer, mas disse.

2024/08/31

Dia 2550

Nós quebramos todas as peças, mas ainda queremos jogar o jogo. A mesma distância que você cria entre nós, é a mesma que eu mantenho. Talvez tudo isso tenha servido para eu finalmente entender que não existe alguém esperando por mim no mundo, que talvez eu não tenha nascido para dividir a vida com alguém e que eu nunca vou ter uma pessoa me esperando em casa depois de um longo dia de trabalho.

Que talvez eu nunca vou ser visto como uma opção ou escolha de alguém e que por mais que eu faça de tudo para ser uma boa pessoa e um bom amor, nem sempre é suficiente. Que sentimentos e a vontade de fazer dar certo nunca vai ser o bastante se não houver reciprocidade, disponibilidade e querer de ambos. Que talvez eu tenha insistido demais esse tempo todo em algo que não foi destinado a mim. Eu mirei no amor e acertei na dor... Acertei na solidão.

Troquei a batida da música pra não ter que virar o disco. Pra ver se o coração acompanha e começa a bater pela pessoa certa: eu. Que grande ilusão pensar que seria um daqueles amores de cinema. Que seria igual as músicas de Caetano.

Mas se for olhar o mundo hoje, tente enxerga-lo com um olhar gentil. Pessoas que tem um olhar assim enxergam o mundo com amor e acabam te enxergando com amor também, e ser visto com amor tem sido mais raro do que podemos imaginar. O corpo dança com qualquer batida. Mas a pele só arrepia na frequência certa.

2024/07/20

Dia 2549

 

Abraço demorado é meu silêncio dizendo tudo que não sei dizer.

Quando eu morrer, por favor, não chorem. Festejem. Não quero velório, por favor, não. Cremação, simples, simbólico. As cinzas em um lugar bonito que eu ainda não tenha conhecido. "Não tive tempo" de conhecer. Fumem um cigarro por mim depois.

Agendem uma festa, chamem todo mundo. Quero que toque Mamonas Assassinas, Ultraje a Rigor ou qualquer coisa assim. Brindes e copos para o alto. Sorrisos. Crianças correndo, gritando e rindo por aí. 

O contrário da morte não é a vida, é o nascimento. A morte é o fim de um ciclo que começou no nascimento. Aproveitamos o meio do caminho. É necessário por um fim. Saudade fica, é claro que fica, mas todo mundo precisa de um símbolo para o fim. A minha, vai ser a última bexiga estourada com uma salva de palmas. Vai vir um silêncio depois, um constrangedor silêncio e nessa hora preciso de uma música especial. Uma bem alegre. Celebrem. 

Quando entendemos que só temos o aqui, agora, começamos a refletir em sermos reativos, em estado de humor, onde aplicamos a maior parte da nossa atenção e tempo, com quem passamos mais experiências e tudo aquilo que fizemos e também deixamos de fazer. A gente tem que tomar cuidado pra não afundar, às vezes a vida fica pesada demais.

Usem as melhores roupas que tem para irem ao mercado, e daí? Banho, cobertas e bebida quentinha. Beijem seus parceiros, seus filhos mais ainda. Abracem. Façam aquela oração poderosa quando ninguém estiver ouvindo. Riam até a barriga doer. Se preocupem menos, afinal estamos só de passagem por aqui mesmo.

Essa não é uma carta de despedida, mas estou me despedindo.

Com amor.

2024/07/12

Dia 2548

Ninguém bagunça sua casa se você não der a chave. Esse post não é sobre casas.

Eu chorei quando percebi que minhas tentativas eram em vão, que nada importava. Tu cabia em mim, mas eu não tinha espaço em você. Havia amor, é claro que havia. E enquanto eu te via em câmera lenta para gravar seus detalhes, você acelerava meus áudios no celular. Sinto falta dos seus olhos castanhos me fitando pela manhã, só que nenhuma manhã teve sol novamente.

Decidi escrever todos os dias mesmo que não tenha nada a dizer, mas sempre terá algo ou à quem me expressar, afinal, estamos rodeados de vida, de partidas e chegadas. Há algo em mim que não fecha, não cura e não cicatriza, e ás vezes dói.

Somos todos almas desgastadas, conhecendo outras almas também desgastadas, tentando entender sentimentos que um dia nos foi tão familiar. Esse lugar, esse ar, é tão confortável e aconchegante que parece lar. Arrumei a casa, troquei as cortinas e fiquei sentado no sofá esperando mas ninguém apareceu. 

A casa arrumada, mas vazia. Esse post não é sobre casas.

2024/06/15

Dia 2547


Pessoas vazias já transbordaram muitos sentimentos. Copos cheios e corações vazios. Nos cobram o tempo todo sobre o que não tem. Mas o que efetivamente estão oferecendo em troca? Ou, olharam para trás para lembrar o tanto que já receberam e não retribuíram? Somos cheios de vazios que não entendemos.

O botão do rádio parece que não acha mais a música certa. A fila no supermercado parece que está sempre ficando maior. O cadarço parece sempre estourar. A janela emperra, a luz queima e o café, droga, o café acabou. 

Tem pessoas que só começam depois de um fim. É necessário o desastre para que o primeiro tijolo seja reerguido. Quando for ver, já é manhã novamente, totalmente diferente. Às vezes é necessário a violência para que o amor tenha importância. Às vezes é necessário o fim para que tenha um começo.

Quando uma pessoa chora de tristeza ela não chora apenas por aquele momento. Mas também, por tantos outros que ela se segurou. Quando uma pessoa chora de felicidade, ela não chora apenas por aquele momento. Mas também, por tantos outros que ela nunca teve até aquele. Percebe? Tudo está em excesso. Tudo está em falta.

Vivemos à espera do momento perfeito. Ele acontece uma ou duas vezes e a gente não sabe reconhecer até ele acabar. Todos nós estamos nos consertando de alguma coisa ou de alguém e apenas uma vez, eu gostaria de ser o poema e não o poeta.

2024/06/08

Dia 2546

 

Acordei, fiz um café forte. Com a xícara na mão olhando pela janela da sacada o vento lá fora forçava as árvores a balançarem. As rajadas fortes nas folhas e galhos e depois a calmaria. Havia dança em tudo aquilo. 

Ontem fizemos amor, mas nem nos encostamos. Ela deitou no meu peito e me contou seus segredos mais secretos. Confiou em mim para falar seus pecados mais pesados. Seus medos mais obscuros. Suas inseguranças mais pertinentes. Suas vaidades mais envergonhadas. Suas vontades mais escondidas. Já era noite novamente. Fica, eu abri um vinho.

Aos meus pensamentos mais impuros, dedico a você. Nossos olhos transaram a noite toda. Enquanto se movimentamos e paramos. Enquanto eu tirava o sutiã e a calcinha dela. Enquanto eu beijava um pouco abaixo da barriga, um pouco acima da virilha, assim, no cantinho. Enquanto eu estava por cima. Enquanto ela estava por cima. Enquanto os movimentos pararam e só havia o barulho de respiração no quarto. Fica, eu abri um vinho.

Qualquer uma que tomasse o seu lugar seria uma substituta fraca. Amo você, com um amor tão grande que simplesmente não pode continuar crescendo no coração. As outras meu bem, são só as outras. Reciprocidade é quando um ri da risada do outro. Porque a vida é uma festa e estamos celebrando e transando. Estamos sorrindo, felizes. E quando o vinho acabar e eu olhar para você dormindo abraçando o meu travesseiro, já vou saber que a dança do lado de fora da janela é a comemoração deste momento.

Mas fica, eu abri um vinho.

2024/05/19

Dia 2545

 

Eu estava em uma praia e corria, mas não na areia. Corria, sei lá porque, sei lá pra onde. Só corria. No horizonte o infinito e no chão um caminho que não acabava. Eu jamais sairia daquela praia. Então acordei, ainda era escuro. Passava das três mas ainda não eram cinco. 

Levantei, lavei o rosto. Passei um café fresquinho. Um café amargo, um chocolate amargo mas um amor doce, por favor. Fiquei lembrando da praia enquanto o café pingava e dos rostos que apareceram. Que esquisito esse sonho, tinha gosto de saudade. 

Saí de casa, parei no meio da calçada e olhei para cima. O céu parecia grande e infinito. O que vem depois das nuvens, estrelas? Até onde vai essa imensidão? Era azul, branco, alaranjado lá no finalzinho. O céu é grandão e eu, pequenino.

Olhos diferentes têm visões diferentes. Tente, sempre que puder, enxergar o mundo por outro ângulo. Tente, sempre que puder, enxergar o mundo pelo olhar de outro alguém. Às vezes o mundo já é o mesmo a muito tempo que ficamos cansados, mas quando vemos pelos olhos de outro alguém, acaba sendo um mundo totalmente novo. 

Talvez nós estamos voltando a olhar a lua? Sentei no banco, acendi um cigarro e fiquei olhando as pessoas na rua. Estamos morrendo desde que chegamos e esquecemos de olhar a vista.

Voltei pra casa, pra minha cama. Já eram mais de seis. Quis voltar para a praia mas não para correr. Sentar, olhar o horizonte e pensar no mundo. E você, bem, você é meu mundo.

2024/05/05

Dia 2544

 


Quando você decidiu ir embora não perguntou como eu estava ou como me sentiria. Não quis saber como as coisas ficariam dentro da gaveta ou os espaços vazios do guarda roupa, da cama e da sala de estar. Os vácuos entre as fotos da estante e no banco do carona.

Quando você decidiu ir embora não quis saber porque as garrafas ficam sempre vazias e o cinzeiro sempre cheio ou, porque tem silêncio dentro de casa e eu não quero falar sobre isso. 

Quando você decidiu ir embora não se preocupou como ficariam suas caixas aqui dentro. Não fez questão de saber o que ficaria vazio e o que transbordaria. Em nenhum momento questionou o porquê da tempestade e onde estariam os dias ensolarados (...) Um dia seremos apenas fotos. Músicas escondidas em fins de playlists quase nunca selecionadas. Agora somos estranhos com memórias em conjunto.

Se não tinha intenção de ficar, porque fez esse espaço de morada? No final das contas, só procuramos por alguém que deite ao nosso lado em dias de chuva. E hoje, chove lá fora.

Esse texto não é sobre ir embora.

2024/04/20

Dia 2543

Entendi que me caracterizo dentro do conceito de solitário conhecido. As pessoas me conhecem, sabem meu nome e muitas coisas que fiz e faço. Ando nos lugares e as pessoas me param, perguntam como estou e dizem "que bom te ver". Mas quando chego em casa e coloco minha roupa na máquina de lavar é como se houvesse um precipício entre a lavanderia e a sala de estar. E fico ali, nu, entre dois mundos da qual não sei qual pertenço. 

Gostar de mim é perigoso, eu sou de verdade e isso assusta muita gente. É a intensidade de um trem bala misturada com o início de uma nascente. O que ninguém diz é que para toda nascente o fim é o oceano. Então transbordo em excessos.

Há uma diferença entre ser feliz e estar distraído da tristeza. Ultimamente tenho fugido, fingido, tentando aceitar, me direcionar pra outra rota. Um eterno esconde-esconde e espero que a solidão não me encontre. E se me encontrar, vai ser difícil a despedida. 

Eu tô de boa, só com saudade de uns tempos aí. Já vivi tantos recomeços que já nem parece a mesma vida. Parece que estou sempre preso no dia anterior do dia anterior. Do café só sobrou a marca dentro da xícara e de mim? Eu não faço ideia do que sobrou de mim. 

Bem vindo ao meu delírio. Aqui é confuso, esquecido, violento, dramático, romântico e ansioso. Respire. Não chegamos nem no meio do caminho. Acendi um cigarro, olhei pela janela e o mundo já não era mais o mesmo.

2024/04/09

Dia 2542


Orgulhe-se pela maneira corajosa com a qual lidou com os acontecimentos recentes. As batalhas silenciosas que você enfrentou e provavelmente perdeu. As lágrimas que você segurou e as que deixou rolar livremente. Você fez o que deu. Você fez o melhor que podia.

Eu desejo que você se cure dos machucados que te deram mesmo quando você ofereceu o seu melhor.

Perceba que o que também mata é você ficar tentando consertar as coisas que não foi você que quebrou, entende? Depois dos 30 você passa a entender a vida um pouco mais e começa a apreciar as pausas. E agora, neste momento, neste exato momento, é o tempo de uma pausa.

De forma alguma descarte essa tristeza. Abrace-a. Saiba que sem ela você não saberia desfrutar da tal felicidade. A solidão e angústia que a acompanham também são solidárias. No momento perfeito todas elas irão embora e ainda restará você. Ainda restará você. 

A sobra, o resto, o que ali ainda padeceu tentando se reerguer. A violência, o sexo e aquela tensão que jamais acaba. E por fim, o silêncio. O que vem subsequente ao silêncio é sempre o recomeço. Mas quase ninguém sabe apreciar o silêncio para identificar que está recomeçando. Você não precisa colar pedaços ou, tentar acha-los por aí. Você já está completo.  

Não precisamos viver um eterno buscar de não sei o que, não sei aonde. Está tudo onde deveria estar, e o que carece é apenas um sorriso. Aqueles que ficam genuinamente felizes por ver outras pessoas felizes entenderam tudo sobre a vida.

Cheiro de amaciante na roupa. Casa arrumada. Uma moeda na rua. Uma música favorita que toca na rádio. Um filme repetido. Cheiro de café fresquinho. E silêncio.

2024/03/24

Dia 2541

 


Um dia você acordará neste mundo pela última vez. Um dia será a última vez. Você vai acordar, abrir os olhos e lavar o rosto. Tomar seu último gole de café, calçar pela última vez as meias e os sapatos. Olhar para trás em câmera lenta a sala de estar enquanto a porta se fecha. 

Ver o relógio em uma ilusão de futuro sobre as próximas horas e até os próximos dias. Cansado, fadigado, pensando que amanhã estará melhor, mas o amanhã não vai chegar. 

Vai ser a última vez que vai ver sua família. Vai falar uma frase qualquer e está será a última. As chaves batendo na fechadura uma última vez.

Vai expirar uma última vez. Seu corpo não vai mais acordar. Você, enfim, terá partido. A dor maior é sempre pra quem fica, pois o novo de agora em diante é um espaço de acontecimentos e lembranças sempre com a falta de um. E essa falta de um aos poucos vai amenizando até chegar o momento que simplesmente foi aceito a situação porque não tem como voltar atrás.

Às vezes é seu último dia, mas o para sempre na vida de outra pessoa. A pergunta que fica é: o que você quer deixar de lembrança no para sempre de quem você ama?

A vida é um sopro.

2024/03/17

Dia 2540

 


Enquanto dividimos aquele cigarro na sua cozinha, eu estava chorando quando sussurrei “eu fui embora de tanta gente esse ano” e você parecia tão calma falando sobre isso. Mas às vezes é isso mesmo, você tem que ir.

Quando uma pessoa te ama de verdade, ela faz questão da sua presença, da sua companhia e você não precisa lutar por isso, você não precisa pedir pra entrar, ela vai te dar a chave e te convidar. Se você está em um lugar onde tem que insistir pra estar lá, sugiro que dê meia volta e se retire, esse lugar não é seu. Acredite, quando é pra ser, as coisas fluem e você não precisa pedir e muito menos implorar por isso.  Nos lugares certos, com as pessoas certas você consegue perceber nitidamente a sua importância.

Quando os sábados terminam e você volta pra sua cama - sozinho -, não vem aquela sensação de que o mundo é um lugar grande demais para que sigamos sem enlouquecer? Pois fique perto de pessoas que te trazem de volta quando estiver perdido. De pessoas que te lembram quando você mesmo já se esqueceu. Existem pessoas que são nossos lugares favoritos. Fique aí, mesmo que demore e eu espero que demore. 

Pela segunda vez me perguntaram se já me apaixonei alguma vez na vida. E eu lembrei de você e do quanto eu não gosto de ficar tocando nesses tipos de assunto. Apertei forte sua mão enquanto o amor nos larga. É bom ter alguém pra conversar, alguém que te faça rir quando as coisas não vão bem, mas hoje ri sozinho.

2024/03/03

Dia 2539

 


Esse texto não é sobre você.

Às vezes você sabe que vai bater, e acelera. 

Precisamos entender que agora temos realidades diferentes. Histórias diferentes, tempos diferentes, lembranças diferentes e mundos diferentes. E vamos precisar aceitar isso. Por outro lado, saiba que não haverá saudade batendo a porta no fim do domingo. Que haverá sexo sorrindo na hora do ato, chuveiro pequeno pra nós dois e abraço com corpo molhado. Vai ter cabelo seu no meu moletom, no banco do carro e no travesseiro. Que vai opinar sobre meu perfume, sobre a calça e o sapato. Jogo de cartas e a chuva lá fora. Silêncio de três segundos antes do refrão da música a ser cantado por três vozes simultaneamente: a do rádio, a minha e a sua.

Esse texto não é sobre você.

É sobre você ser como um livro raro na estante. Uma xícara favorita. Aquele cinto que mesmo sem combinar com nada eu sempre estou com ele. O CD guardado, com álbum e tudo cheio de carinho porque nele há uma música especial. Os ingressos de cinema apagados com o tempo na gaveta. O último número discado no celular. Quem vai saber que dentre essas milhares de fotos ainda há uma sua perdida aqui. Quem vai saber? Paixão é esbarrão, amor é encontro. 

2024/02/18

Dia 2538

 

Os azuis oceano me queimavam, seu hálito quente deixava meu corpo em brasa, seu gosto me tirava de órbita, mas seu corpo... Esse me desmontava. 

Me beija na rua, me leva pra tua casa, me deixa nu e diz que eu sou o que você procurava. Fale a eles sobre essa garota dos olhos pretos e de seu sonho louco. Meu coração ainda te quer, te busca, dispara só com o som da sua voz, mas tenho medo de todas as feridas cicatrizadas que nos causamos e que ainda estão marcadas em mim. 

A chave debaixo do tapete, uma desculpa só para te ver no meio da semana. Fazer amor na sacada, a batida no som do carro, o excesso de álcool na festa e a ressaca no sofá. A janela do ônibus e as mensagens no celular. Éramos tão jovens. Hoje eu pensei tanto, mas tanto em você, que tive que pausar tudo o que estava fazendo, fechar os olhos com força e respirar fundo. Sentei um pouco esperando o coração parar de doer. Não parou.

2024/02/13

Dia 2537


Há uma quietude inexplicável em uma xícara de café. E sentado aqui apreciando isso, o mundo parece quieto. Eu larguei o celular, voltei a escrever no caderno com uma simples caneta preta. Entrei no meu laboratório mental. 

Querido eu, me desculpe por não ter te salvado do caos do mundo até aqui. As coisas ficaram meio bagunçadas, mas vamos consertar tudo. São 7:00hs e o sol invade a casa pela janela da sala de estar sem pedir permissão. Como que um dia novo começa sem o anterior nem ter terminado ainda? Nem o dia, nem a vida esperam. Essa é a real. 

Estou sempre vivendo um dia para trás, pensando em um dia para frente. Entende? É necessário alinhar para o hoje, agora, às 8:20hs. A caneta vira pincel e com a tela em branco pincelo as dúvidas da minha vida ouvindo as músicas dos anos 2000. A cada batida, três estrofes de memórias misturadas com um jardim da sacada. A cada batida uma oração, um coração quentinho e uma sensação de felicidade. Um número digitado que nunca ligo, uma mensagem que nunca envio, um refrão que nunca canto. Tem dias que só no outro dia mesmo.

Olhar com calma aquilo que quero entender depressa. E quando fui ver, já me perdi em devaneios novamente. Já escrevi algumas linhas e lá se foram alguns minutos. Droga, eu não consegui parar o tempo naquele instante. Ou naqueles tantos outros instantes. E já foi, o café esfriou. 

2024/02/04

Dia 2536

 

Pra quem é de silêncios, qualquer barulho é trovão. Se eu sou maré baixa e calmaria, ela é uma tormenta e tempestade. Um abraço seu resolve tanta coisa. Me quer, eu me entrego. Não sinto nada pela metade, eu exagero. Somos de muitos, do contrário porque se conectar?

Imagine alguém dizendo "não posso te perder, vamos consertar isso" e provar isso um pouquinho por dia, mesmo não fazendo ideia de como fazer. Mesmo não tendo a ideia que já está fazendo só por estar ali. 

O mundo está cheio de metades, mas precisamos de inteiros. Mesmo que esse inteiro esteja faltando uma parte, nos encaixamos, nos preenchemos. Porque me envolver com alguém tão raso se sou tão profundo? 

Te amo, de um jeito cliche. Te amo café, flores e ouvir você respirando ao meu lado em mais uma noite de terça feira qualquer. Te amo pijamas esquisitos e pantufas de personagem. Te amo pipocas, mãos pequenas e olhos grandes. Te amo 23:00hs, mensagens carinhosas e textão. 

Eu abracei você pela primeira vez, de novo.


2024/01/28

Dia 2535

 

Eu fico poema com isso. Quando alguém sabe a brincadeira que queria ter feito quando ouvi algo no ambiente. Quando identificaram minhas negações e desconfortos na sala de estar. Quando me fizeram um café fresquinho e me trouxeram uma xícara quase até a borda sem eu pedir. A batida folk da música no carro quando o farol fecha e o refrão "Durante todo tempo bem do meu lado, lá estava você brilhando, meu raio de luz"

O vermelho Marlboro no batom dos lábios dela e o azul anil no céu. Minha camisa xadrez e botas engraxadas. Barba feita e as chaves na mão. O capricho de perguntar se o perfume combinou. As unhas feitas de propósito. Enfeitada de jóias que ganhou uma em cada ocasião. O timbre da voz baixinho perto do ouvido e a respiração ansiosa no meu pescoço quando estamos envolvidos em um abraço e suas mãos na minha nuca.

Toda vez que te encontro é a primeira vez. Enquanto me apresentava as músicas de sua cantora preferida, eu falava pra você que a gente criaria memórias afetivas, e você brincou no dia dizendo “e logo depois a gente vai se desentender e essas memórias serão dolorosas”. Eu realmente correria o risco de ser para passar todas elas contigo.

Eu fico poema com isso. Tenho casa e durmo nela todos os dias. Mas eu também tenho um lar e meu lar tem os olhos mais bonitos que eu já vi.

Quero tanto ela que hoje deixo a porta destrancada. Deixo as luzes acesas mesmo tendo medo do escuro.

2024/01/25

Dia 2534


Eu estava lá, meio perdido, meio errado, um pouco confuso, talvez incompleto, mas estava sempre lá.

Estava lá quando ela não se encontrava e estava sem rumo. Estava lá quando se sentia abandonada pelo mundo todo. Estava lá quando se encontrou também e quando sentiu que pertencia a algo maior que ela mesma. Estava lá quando fez um amigo novo, quando perdeu um amigo, dois, três, quando se sentiu sozinha novamente.  

Estava lá quando ela perdeu um filho, a fé, a esperança e um minuto. Estava lá quando o cadarço quebrou, quando descobriu uma nova música favorita, quando precisou de um abraço e uma ausência. Estava lá quando perdeu o emprego, esqueceu a senha, as chaves, o celular, o dia do aniversário. 

Eu sempre estive lá mesmo quando não queria estar. Quando não era para estar. Quando não precisava estar. Eu estava lá, meio perdido, meio errado, um pouco confuso, talvez incompleto, mas estava sempre lá.

Eu estou muito errado ou a segunda parte da vida é sobre se curar da primeira? No meu túmulo estarão gravadas várias datas, é que me vi morrer diversas vezes nesta vida. E descobri que para viver essa vida a gente precisa morrer uma centena de vezes para viver apenas um momento.

2024/01/06

Dia 2533

Hoje na terapia me falaram que eu devia dizer como me sinto. Mas porque? Que diferença faz. As pessoas só acordam nas partidas. Ninguém dá a mínima enquanto você está ali cansado ainda tentando salvar o navio afundando. É triste mas é verdade. E de navios afundando eu sempre fui o último passageiro. Sempre vendo todas as partidas e logo depois caindo na imensidão do oceano. 

Então, pra que dizer como me sinto se o navio vai afundar? Como sei que ele vai afundar? Porque pelo que vejo, sou o único tentando tirar a água que transborda aqui de dentro. O único tentando tampar os buracos no casco. Mas e se eu colocar uma boia e me salvar? E se dessa vez eu ser quem vai partir? E se dessa vez eu abandonar o barco primeiro?

Acho que o mais importante é estar com alguém que mesmo que você esteja sozinho, não se sinta sozinho. O que isso quer dizer?

Eu estava sentado em um desses lugares que vende café, caldos e bolos tomando um expresso quente. Um caderno e caneta sempre me acompanham ao lado da carteira e celular e por mais que eu não escreva muito nele, sempre levo caso eu me perca em devaneios. Dia cheio, muitas coisas para resolver, só problemas desde cedo. Um dia bem pesado mesmo. Fora todas as coisas na minha cabeça. E com a xícara na metade e caderno aberto ali, naquele momento eu não me sentia sozinho. Eu sabia que se eu mandasse uma mensagem com qualquer conteúdo iria voltar com carinho. Se eu ligasse, seria mais ainda. E se eu não fizesse nada, só terminasse o café, pagasse e fosse embora ainda assim não me sentiria sozinho, embora estivesse sozinho. Porque no fim do dia ao voltar pra casa eu teria a certeza que teria alguém esperando meu boa noite.

Entende? Estar sozinho é bem diferente de ser sozinho e não nascemos para sermos sozinhos. Pois então, chore. Quando uma pessoa chora, nunca chora pelo que chora, mas sim por todas as coisas pelas quais não chorou em seu devido momento. 

Mais um porto, ancorado. 

2024/01/03

Dia 2532


Querido diário,

Tá foda!

Todos nós somos uma história mal contada, um livro que arrancaram uma folha no meio de um desfecho decisivo da trama. O outro sempre vai ser a parte que preenche esse vácuo de acontecimentos vindo com a página cheia de aventuras e reviravoltas. Vindo com aquele andar esquisito ou aquele perfume que só ele tem. Bem aventurados são aqueles que se querem e se tem. 

Cuidado, a carência faz você ver amor onde não há. Mas olha só você, acolhendo pessoas com palavras que gostaria de ouvir. Abraçando demorado como gostaria de receber. Pegando na mão em publico, tomando a iniciativa. Olhando no fundo dos olhos como se despisse a alma que chega a ser constrangedor como se realmente houvesse um momento nu entre a porta do quarto e a sala, de surpresa. E esse espaço entre o quarto e a sala é sobre seus pensamentos e seus sentimentos. A pergunta que fica é: quem realmente te viu despudorada assim?

Eu deixei uma pessoa que eu amava muito para trás. Desculpa, não sei porque estou chorando.

- Porque dói.

É, dói.

PS: para você, que me fez ver coisas que eu não teria visto.