2014/07/01

Dia 1905

Era sexta a noite. Chegamos por volta das 22:00hs. O lugar era bonito, bem animado ali em meio a Vila Madalena. Tocava Doors ao fundo. Fazia frio, São Paulo sempre faz frio ou então aqueles calores insuportaveis. Cadeiras de madeira, luzes que parecem ser de neon perto do teto em um vão no gesso refletindo nas garrafas da prateleira. Jack Daniels, Jose Cuervo, Stolichnaya, Johnnie Walker faziam parte do show. Um contraste legal para a decoração. Um pouco cheio, mas que lugar não é cheio as sextas á noite?
Sem cervejas hoje, a loira não gostava do cheiro nem tão pouco do gosto nos lábios quando me beijava. Eu usava botas, jeans e preto. Ela couro, jeans e uma sapatilha que parecia de bailarina. Ela longos cabelos, eu cabeça raspada e barba. Ali eu sabia dos riscos e não queria nenhum otário olhando pra minha garota. Não porque era minha, mas ela é linda. E eu gosto de ser o cão de guarda dela sabe? Proteger ela, cuidar dela e não deixar nenhum zé-mané com papinho furado chegar perto. Era sempre assim quando a gente saia pra lugares cheios, eu franzia a testa tentando intimidar e ela me fazia sorrir. Dai não tinha cara de mal que desse pra se segurar.
Eu me levantei por 5 minutos e quase me digladiei com uma fila de pessoas á minha frente para chegar ao banheiro. Aquele cheiro forte de urina masculina. As pias molhadas. Cenas eróticas rabiscadas nas paredes dos mictórios. E novidade, sem papel! Depois de urinar e lavar as mãos, olhando rápido para o reflexo do espelho reluzindo pela lampada amarela atrás de mim sombreando meu rosto, abro a porta e aquele mar de gente na minha frente.
Mas de ombradas e trancos eu volto á mesa e me deparo com a unica cena que odeio ver. Um cara dando em cima da minha garota. Sabe, eu já não costumo ser muito educado e cordial e ainda mais agora. Dava pra ver de longe que ela estava acompanhada. E ela não era do tipo que fazia por onde virem até ela, mas chamava atenção porque era linda. Droga, ela é linda demais e eu tenho que cuidar dela. Quando olhei pro rosto dela, vi a cara dela meio de tédio e meio com receio que eu fosse brigar com ela pelo acontecido. Mas calma querida, eu sei o que aconteceu. O idiota ali queria alimentar o ego masculino dele, dando em cima de uma mulher acompanhada (e muito bem acompanhada) tentando leva-la consigo embora como se aquilo fosse uma disputa e ele teria que ser o vencedor. Mas hoje não! E nao com a minha garota!
Eu empurrei a cadeira a minha frente e logo fui perguntando o que estava acontecendo. O desgraçado olhou ironico pra mim e disse pra eu sair dali que agora ele estava ocupado conversando com uma linda garota. Será que o imbecil não viu que aquela era a minha garota? Eu logo peguei e idiota pelo colarinho e levantei ele 3 centimetros do chão e o empurrei pra frente. A cadeira que ele estava sentado caiu. Ele me olhou assustado e minha loira mais ainda. Jamais me veria daquele jeito antes. Apesar do susto que dei nele, o panaca continuou grunhindo algo que eu não entendia. As pessoas em volta não perceberam direito que aquilo era uma discussão pois eram muitas conversas paralelas no lugar. Um barulho a mais ou a menos ali... Eu peguei a cadeira no chão e me sentei novamente, furioso da vida. Mas achei que o babaca tinha entendido o recado.
Alguns minutos depois eu sinto um vento atrás de mim e vejo pelo reflexo do copo em cima da mesa alguém me atacando por trás. Eu levanto rapido e consigo desviar. O cara veio de novo e eu levantei o braço. Ele veio com uma garrafa para quebrar na minha cabeça e eu coloquei o cotovelo na frente. Puxei ele pela camisa e bati com a cabeça no nariz dele. Quando vi o sangue achei que era meu, mas não. Acho que ele vai precisar de gelo agora. Caiu desacordado derrubando as cadeiras e outros dois caras vieram ajuda-lo. Logo aquele pedaço se encheu de gente querendo ver o que tinha acontecido e porque as cadeiras estavam no chão junto com aquele otário.
Minha menina estava assustada, querendo ir embora mas ficou ali. Sabia que não tinha lugar mais seguro do que atrás de mim. Sabia que eu não ia deixar nada de ruim acontecer com ela e que ninguém ia tocar em nenhum fio do cabelo dela se eu estivesse por perto. Porque era assim mesmo eu era o pai dela, o guarda-costas particular, o melhor amigo, o marido, o amante... Nada ia acontecer com a minha pequena se eu estivesse ali. Por isso era muito importante e imprescindível que eu estivesse sempre ali e ela perto de mim. Acho que seria a unica coisa que eu jamais me perdoaria, seria se algo acontecesse com as pessoas que eu amo e eu, de alguma forma estivesse impotente de fazer algo. Ok, é verdade, seus pais te protegem a o que? 19, 20 anos? Mas á partir do momento que me prontifiquei, a responsabilidade é minha. Minha!
Tiraram o cara de lá, não faço idéia pra onde levaram ele. Eu tomei mais alguns drinks e acalmei minha garota. Logo quis ir embora de la. Aquele manézão tinha estragado meu passeio. Quando saimos do bar eu peguei as chaves da moto do bolso. A minha mão sempre de mãos dadas com ela. 
No estacionamento, perto de um Honda prata saiu um cara vestindo roupas escuras. Eram quase 2:00 AM. Vi algo brilhoso entre o bolso da jaqueta dele e o carro. Eu nem percebi quando aconteceu mas me acertaram pelas costas. Era um outro cara escondido... Eram 3 caras. Tinha um outro que apareceu. Eu cai, mas consegui sacar a arma. Efetuei 3 disparos. Acertei um deles. Os outros correram. Minha garota ficou assustada com o barulho dos tiros. Deitado no chão senti as mãos molhadas, achei que era o sangue do outro cara. Ja viu sangue a luz da lua? É bem preto!
Mas não era dele, era meu. E sabe aquela história de que passa um filme na sua cabeça quando você ta indo? Então, é bem isso. Dai... eu dormi. Eu lembrei de quando a conheci, a garota mais nervosa que ja tinha visto. Quando nos encontramos a primeira vez ela nao parava de tremer. Eu era o bad boy tatuado e ela a garotinha acostumada com a rotina e a repetição diária familiar de se manter dentro de casa - segura. Eu era do mundo e ela uma garota de apartamento. Ela tinha um riso inconfundivel e eu um universo inteiro pra mostrar á ela. Eu queria presentar ela com liberdade sabe? Tirar os muros da familia dela. Mostrar pra ela, que ela podia ser o que quisesse ser. 
Doeu nela quando me fui. Ela chorou, amaldiçoou o destino e chegou a odiar o dia que me conheceu. Mas foi forçada a aceitar. E quando se acostumou, mesmo assim ainda se pega chorando no banheiro lembrando de uma risada, de uma marca escondida ou do ultimo beijo. "E nem tivemos como nos despedir" - ela diz.
Tem certas coisas que não se pode fazer nada, elas só... Acontecem. Eu cuidei dela até o ultimo momento. Em todas as vezes que eu brigava com ela, pra guardar o celular e prestar atenção na rua. Pra ela comer ou pra ir dormir cedo. Talvez eu só quisesse o bem dela entende? Mais do que o meu próprio. 
Pequena, comprimente o cobrador. Tire os sapatos antes de entrar em casa. Levante-se da cama de manhã querendo mesmo levantar. Boa noite. Durma bem. Qualquer coisa estou aqui... Agora protegendo você dos pesadelos.

Eu te amo
Você estava pronto
A dor é forte e insiste em aumentar
Mas eu verei você
Quando me for permitido
Sua dor se foi, suas mãos desamarradas
Tão longe



Um comentário:

A. Paiva disse...

Aaaah Zeus, que incrível.
Aquele momento que você ler uma coisa tão perfeita que não sabe o que fazer logo em seguida!
MARAVILHOSO.