2014/07/07

Dia 1910

Então, esse era pra ser um dia normal. Se não fosse o fato de que era o primeiro dia após eu receber a noticia.
Levantar, tomar banho, esquentar o café, calçar as botas e ir trabalhar. Mas, o que supostamente eu deveria fazer agora? Essa é a parte que eu tenho que voltar um pouco no tempo e contar o que aconteceu pra vocês entenderem.

2 meses atrás...

Esse é o reflexo do espelho que não vai mudar. É uma quarta-feira. 22 anos e alguns meses de idade, recém-admitido na Corporação do Comando Tático da Policia Civil do Estado de São Paulo. Diante do meu Comandante, faço continência e me retiro da sala com o distintivo em mãos. Ele brilha, é de latão folheado. Tem meu nome escrito e 'Detetive' em negrito debaixo dele. Ao sair da sala me encho de orgulho de ter conseguido. Lembro do dia da prova e em como eu estava nervoso. Tudo estava dependendo daquelas 4 horas de prova baseadas naquelas 60 questões. E depois, a prova física e passar pelo psicólogo. Nunca tinha ficado tão tenso quanto nessa época da minha vida. "E tudo agora vai mudar" eu pensei. E mudou, eu mal consegui identificar tantas mudanças nesse curto prazo de tempo. Uma arma e uma responsabilidade ao mesmo tempo, eram esses meus pensamentos. 

1 mês atrás...

Por mais que ela tivesse visto armas pela vida toda dela, eu não gostava de deixar minha beretta 9mm perto dela. Queria que ela estivesse em paz dentro de casa, como se la fosse seu templo e nada de mal pudesse acontecer a ela. A casa cheirava a incenso. E sempre tinha flores na varanda.
Meus horários eram alternados então ela nunca sabia que hora eu estaria em casa apesar da gente se falar o dia todo. Dia que eu tinha que cumprir mandado era difícil, ela ficava preocupada. Lembro da minha primeira batida umas semanas atrás, eu quase tomei um tiro. Rômulo disse que era meu batismo tomar um tiro na primeira vez. Ah, Rômulo é meu parceiro. Ele é meio gordo, quarentão já e tem um bigode grisalho. Usa óculos pra ler. Nem contei isso pra minha esposa, ela ia pirar. Pra ela eu era o cara que atirava primeiro - sempre. E que seja assim então.
Quando decidimos morar juntos foi meio complicado. Não sabíamos fazer funcionar sabe? Quem coloca a roupa pra lavar hoje? Quem tira a roupa do varal? Ela colocou comida pro cachorro? Deu leite pro gato? Droga, acabou os ovos. Quem devemos culpar já que ambos esquecemos disso? É um desafio e tanto sabe, juntar as escovas de dentes. Se acabou você que tem que ir la comprar, não vai aparecer uma mão mágica e trazer o que você precisa. 
Eu estava sempre limpando minha arma e ela sempre arrumando o cabelo. Eu lendo noticias e ela lendo revistas de decoração pra incrementar a casa. Noivamos logo que entrei pra Policia e logo fomos morar juntos. Ainda estou juntando uma grana pra casarmos. Mas pra mim, já somos marido e mulher. Assinar um papel é só um detalhe porque já sei que vou viver com ela pro resto da minha vida. E ela merece ter aquele casamento de princesas da Disney sabe? E eu vou dar isso pra ela.
Ja faz alguns dias e ela anda falando sobre filhos e crianças correndo pela casa. A gente da risada e ficamos tentando adivinhar que tipo de cabelo ele ou ela vai ter, se é enroladinho ou liso demais. Se vai ter os meus ou os olhos dela. Se vai puxar o meu nariz largo ou o dela arrebitadinho. Mas pensar em ter um filho no mundo atual parece até meio insano. Tem muita maldade acontecendo, ás vezes é foda pensar nisso.

1 semana atrás...

Ela me disse que se sentia enjoada e com muita dor de cabeça á alguns dias. Achei que era porque estava trabalhando demais ou porque não usava o óculos que já tinha feito mas sempre esquecia em casa. Eu disse que se continuasse levaria ao médico. Eu estava de folga, então tratei de cuidar de tudo da casa naquele dia. Depois, sentamos no sofá para assistir televisão. Ela ficou quietinha e deitou no meu peito. Acabou pegando no sono. Então, vendo-a dormir me passou um mundo de coisas na minha cabeça. Eu sempre fui um idiota sabe? Nunca consegui suprir toda a ânsia de amor que ela esperava de mim. Ultimamente as coisas tem acontecido muito rápido e nem perguntei se ela esta feliz. Dei um beijo nela enquanto ela ainda dormia, espero que ela entenda que eu estou feliz.

18 horas atrás...

Estou dentro do camburão, Rômulo cheira a cigarro barato do tipo Free ou algo pior. Temos o apoio de mais duas unidades e a Copom ta mandando mais uma que a Militar vai dar suporte. Nem avisei a ela que hoje teria batida. Na verdade, eu tinha esquecido.
Então, esse era pra ser um dia normal. Se não fosse o fato de que era o primeiro dia após eu receber a noticia. Levantar, tomar banho, esquentar o café, calçar as botas e ir trabalhar. Mas, o que supostamente eu deveria fazer agora? Ontem a noite ela me deu a noticia que estava grávida. E hoje pela primeira vez estou sentindo medo. Tudo me da medo. A sirene, o pé no acelerador, o barulho do encaixe do meu colete. Eu olhei para o meu distintivo e me deu medo. Todos os dias você sai de casa e não sabe se volta, mas e agora? Como ela fica? Será que é dessa hora que a maioria fala, que tem que mudar de profissão? 
Era um caso de homicidio, mutilação e estupro. Haviam 2 mandados para cumprir. Na verdade esse caso nem era meu, era de outro detetive mas demorou tanto pra sair o mandado de prisão dos desgraçados que eu acabei assumindo o caso porque o outro se aposentou. Eu estava nervoso, a gente nunca sabia o que ia encontrar atrás das portas. Eu pensava no meu filho. Na minha mulher. No juramento que fiz ao receber o distintivo. Pensei que poderia tomar um tiro naquele dia. Pensei que meu filho poderia nascer sem pai e minha mulher ficar viuva tão nova. 
No hangar das armas antes de irmos pra rua o chefe perguntou se eu tinha uma arma primária. E eu só mostrei a beretta. Ele riu e jogou uma calibre 12 nas minhas mãos. Ela pesa mais ou menos 3 kilos. O coice que ela dava no tranco era muito forte. "Uma coisa assim mata qualquer coisa" - pensei.
Entao fomos.
Quando chegamos lá o infeliz estava armado. Chutamos a porta anunciando que era a policia e fomos recebidos a bala. Ele disparou 5x e correu da sala para os fundos. Os tiros dele atingiram o vidro da porta espalhando estilhaço pra todo lado. Eu entrei com a 12 e disparei na parede em direção aonde ele correu, o tiro espalhou-se e os fragmentos da bala atingiram a perna dele de raspão. No fundo mais dois viciados armados começaram a atirar. Outros companheiros me deram cobertura enquanto corri pra ficar contra a outra parede. Atiraram em minha direção. Dava pra ver os pedaços de parede caindo conforme as balas penetravam o cimento e tijolos. Foi então que apontei o cano da arma pela fresta da estante e parede e disparei. Acertei um deles que acabou caindo no chão. Havia dois no fundo. Pedimos para pararem de atirar pra negociarmos mas eles nem ouviam. Gritavam palavrões e coisas que não davam pra entender direito, ainda atirando em nossa direção. O Oliveira atingiu mais um deles e tirou ele de cena. Sobrou apenas um. Ele pensou em fugir, parou de atirar e foi pro quintal dos fundos mas não havia pensado direito pois as paredes de lá eram altas demais pra pular e escapar. Um morto, outro desmaiado por causa de um balaço que atravessou ele ao meio mas ainda vivo. O que o ultimo estava pensando? Que teria super poderes de sair voando pelo quintal? Coloquei a 12 no suporte e carreguei-a no ombro e usei a beretta como arma primária. Virando a porta o desgraçado estava apontando a arma pra mim. Continuou falando um monte de besteira que era inocente etc e tal. Mas que tipo de inocente carrega uma ponto 40?
Dei voz de prisão e senti o dedo dele puxando o gatilho. "Hoje não" minha voz dentro da cabeça dizendo. Acabei atirando primeiro. Dois de 9mm no peito e ele caiu. Eu senti alivio, enjoo, tontura, medo, raiva, culpa... Tudo misturado mas me mantive á postos. "LIMPO". Perguntei ao Oliveira o que deveriamos fazer com o cara desmaiado e ele disse "Deixa sangrar até morrer". 
No relatório os mandados foram entregues. Assim como a alma desses três ao diabo. Senti vontade de chorar mas engoli o choro. Liguei pra minha mulher e disse que tinha ocorrido tudo bem. E que a amava. Conversamos um pouco e antes de desligar ela pediu que eu levasse 2 litros de leite. 
Ao voltar pra casa naquele dia eu nem precisava dizer nada e ela me abraçava. Eu não contava pra ela essas coisas mas ela sabia que o dia ali tinha sido dificil. Era sempre assim. E incrivelmente dentro dos braços dela era o melhor lugar do mundo. Mas quem diria né? De tudo que eu faço pra cuidar dela e fazê-la se sentir segura, no mundo todo dentro dos braços dela é o meu lugar mais seguro. Então me dei conta de que, pra manter a estabilidade nesse caos e pra manter minha familia com amor eu iria ter que aguentar isso mais vezes. E era isso que fazia o amor crescer, eu saber que apesar de todo mal do mundo no fim do dia eu tinha o melhor lugar pra voltar. 

Daqui 3 anos...

Eu acabei aceitando um serviço interno como promoção. Agora eu só vejo e revejo papelada e dou alguns carimbos. Ah, e puxo o saco de alguns juizes pra eu mandar meus homens mais rapido pra rua fazer o que eu fazia anos atrás. Eu sempre penso na familia deles quando eles vão. Faço preces pra todos eles voltarem inteiros pra casa no fim do dia, assim como eu. Da próxima vez que me abraçar vai sentir algo estranho na cintura. É a minha salva-vidas prateada. E por eu carregar um cano na cintura é que mantenho a paz dentro do meu lar. 

Só que ao invés de uma vir me abraçar quando eu chego em casa, são duas. Mas apenas uma eu coloco pra dormir porque a outra, dorme comigo. Todas as noites. Pra sempre!





2 comentários:

A. Paiva disse...

Termino com uma pergunta na cabeça: Existe pior que Free?

''Assinar um papel é só um detalhe porque já sei que vou viver com ela pro resto da minha vida.''

''Eu pensava no meu filho. Na minha mulher. No juramento que fiz ao receber o distintivo. Pensei que poderia tomar um tiro naquele dia.''

Muito bom, como sempre.

Mel Matias disse...

incrivelmente perfeito.