2023/04/30

Dia 2513


Gosto de vinho mas não sou nenhum sommelier, não sei escolher. Mas eu trouxe. Trouxe pizza também, da mais simples. Senta aqui, tem a lua e toca Caetano no rádio. "Toca Lisbela" - eu digo, porque é a música de Lisbela e o Prisioneiro. Senti falta dessa simplicidade, de um vento que balança o cabelo e de um sorriso no canto da boca que abre uma covinha na bochecha e eu me afundo nesse abismo.

É um sentimento incontrolável, parece que passamos o dia esperando acabar mas acabar o que? A sensação de estar na selva sempre a espreita dessa fera. Mas cadê essa fera que nunca aparece pra eu decidir se enfrento ou se corro? Essa luta eu nunca enfrento porque ela nunca começa, é isso.

"E nesse desespero em que me vejo" - cantamos juntos. Obrigado, Caetano. Uma lágrima escorre, um coração aperta e uma saudade espanca. É a sensação do primeiro e último abraço que nunca aconteceu. Do lábio que nunca senti o gosto. Do corpo que nunca senti quente. Nunca, é tipo pra sempre só que ao contrário. 

Mas senta aqui, tem vinho, tem a lua, tem nós dois. Pra sempre, um minuto.

2023/04/23

Dia 2512


Cheguei na metade do caminho. Bem, nos dias de hoje 30 anos é a metade do caminho. Não estamos chegando muito longe. Guerra, doenças, a economia. Sobretudo, a rotina. Ela me consome demais, como se já não bastasse todo o resto. Eu costumava ler livros em uma semana, hoje mal lembro o título do último que li quanto mais quando isso aconteceu. Era obcecado em escrever. Eu ria um bocado, sorria um montão. Eu rezava mais, cantava mais a música da rádio. Quando foi que as coisas começaram a mudar de caminho? Em que parte dessa história eu me perdi?

Estou dobrando a esquina da saudade, dando um olá para as lembranças e do nada abraço aquela memória que estava guardada em uma caixinha especial, embrulhada com carinho em um papel de presente bonito e um laço desajeitado. Você sabe, nunca fui bom com essas coisas. Mas eu senti, como se fosse algo palpável na palma da minha mão sendo pressionada sobre meus dedos e fazendo um aconchego no meu coração. Eu senti sua falta, sim.

As pessoas hoje vivem a base de ansiolíticos, terapia e tentando algo por elas mesmas e eu entendo. É normal. Mas em que parte dessa história a gente se encontra e é feliz? Quando vamos tomar um café pra eu pegar na sua mão e dizer que vai ficar tudo bem? Pra eu rir do seu batom na xícara branca como se acabasse de me dar um beijo. Quando é que vamos parar de complicar tudo e ser simples?

Ainda quero aprender a tocar violão, andar a cavalo, subir outra montanha e ficar de braços abertos como se eu estivesse vencido na vida, ao menos naquele dia. Estou cansado de me sentir cansado. Ainda estou aqui, esperando sei lá o que, sei lá onde. 

Ainda estou aqui virando uma esquina ou duas e quem sabe em qualquer uma dessas a gente se encontre por aí. Quem sabe já tenhamos todas as resposta do que hoje são nossas dúvidas. Quem sabe toque "when you're gone" do The Cranberries no radio e eu te ofereça uma carona e você não precise ir embora. Quem sabe?!

2023/04/21

Dia 2511

 

Eu gosto de beber café sozinho e ler sozinho. Gosto de andar de ônibus sozinho e ir andando de volta para casa sozinho. Isso me dá tempo para pensar e definir coisas na minha mente livre. Eu gosto de comer sozinho e ouvir música sozinho. Gosto de escrever, dançar e rir sozinho.

Mas quando eu vejo uma mãe com seu filho, uma garota com seu amante ou um amigo rir com seu melhor amigo, percebo que mesmo que eu goste de estar sozinho não gosto de ser sozinho.

Solidão mata um pouco por dia, um por dia. Não nascemos para sermos sós. O plural é mágico, puro e especial. O barulho de duas risadas sempre vai vencer o silêncio, não tem por onde. O calor do coração aquecido por outro coração dentro de um abraço me rejuvenesce vinte e tantos anos. O andar de mãos dadas me faz até esquecer os problemas. 

Mas se um dia eu não souber ser sozinho, seja meu par. Se um dia eu não estiver te fazendo rir então sou eu que precisa de uma piada. Se um dia eu não estiver aquecendo seu coração, saiba que é o meu que anda precisando de calor. E se algum dia eu não te der a mão, por favor, não solte a minha. 

Fiz um café, coloquei duas xícaras. 

2023/04/08

Dia 2510




Arrastei alguns móveis, encaixotei algumas memórias e coloquei água na chaleira pra passar um café fresquinho. Então, se eu te pedir você fica?
Chorei algumas noites, sorri algumas manhãs e ambos sem motivo ou razão. Apenas saiu, que alívio. Menti dizendo que estava tudo bem quando o mundo desabava aqui dentro e menti dizendo que estava tudo ruim apenas pra sentir um afago. Tudo isso é verdade e de propósito. Então, se eu te pedir você fica?
Comprei quadros, enfeites, plantas, livros, tapetes e um jogo novo de jantar. Varri algumas mágoas para debaixo do sofá e joguei fora alguns ressentimentos. Coloquei meu coração no freezer e alguns sentimentos estão no pote de balas da sala. Então, se eu te pedir você fica?
Tomei um banho quente, vesti minha melhor roupa, passei meu melhor perfume. Mudei três vezes de penteado. Fiquei nervoso, bati os pés sem parar. Estalar os dedos mais de uma vez e tirei as pilhas do relógio. Então, se eu te pedir você fica?
Respirei fundo, escrevi esse refrão. Olhei pela janela e a chuva batia no vidro, cada gota fazendo um desenho. As árvores dançavam com o vento lá fora. Meu bem, você vem?
Um beijo destrói toda a filosofia.



2023/03/24

Dia 2509

Hoje me apaixonei durante um sonho lindo. Nada de planos do futuro, coisas grandes, horizontes distantes. Era simples, ela existia e estava ali. Era isso e isso bastava. Me senti apaixonado e acordei feliz. Só acordei feliz. 

Mas acordei sozinho. Não havia ninguém, meu travesseiro não tinha o cheiro de ninguém. Minha casa não tinha o som de ninguém batendo os pratos tentando fazer um café da manhã desajustado. Meu banheiro tinha apenas uma escova de dente. Na sala, apenas meu par de botas batidas e no som do carro só minha playlist repetida. No meu guarda roupa, só meu jeans rasgado. A cama parecia grande demais. A casa silenciosa demais. A cabeça espaçosa demais e o coração pequeno. Pequenininho demais.



2023/02/21

Dia 2508

As pessoas estão sempre buscando algo maior, melhor. Algo que as desafie a dar mais um passo. Eu, por outro lado só estou sentado aqui, fumando um cigarro e tentando ter um momento de paz. Assim, sozinho mesmo. Já disputo tantos desafios comigo mesmo que cansei de querer competir com o resto do mundo.

Rir como criança, ouvir canto de passarinho, sarar de resfriado, escrever um poema de amor que nunca será rasgado. Um café fresco, um abraço apertado, uma música favorita no carro com uma companhia gostosa. Encontrar aquele doce favorito na prateleira de uma loja aleatória, uma moeda no chão e um verso na parede da rua. 

Quero uma cabeça leve e um coração cheio, sem essa turbulência do mundo de querer o próprio mundo e acabar sem ter nada e acabar de mãos vazias. O grande mau de hoje é que tudo dura tempo suficiente para ser esquecido rapidamente. Substituído depressa demais, não há tempo para luta e as vezes a mesma luta nem começa e já estamos em outra. O grande problema dessa geração é que quando algo quebra ninguém concerta. Eu sou da época que quando algo quebrava a gente concertava e não jogava fora. Isso era para tudo, copos, aparelhos, brinquedos e pessoas. 

As pessoas que passaram pela minha vida com certeza deixaram uma marca em mim - boas ou não - e eu espero ter deixado uma marca boa nelas também. Garanto que tentei concertar algo naquele tempo mas as vezes era eu que precisava de concerto e por isso parti. Naquela fração da linha da vida foi eternizado um momento, um sorriso, um olhar. Isso valeu. A gente aceita e segue em frente e se ficou algo para trás, hoje faz companhia para a saudade. Uma saudade boa, gostosa, daquelas que faz a gente se sentir bobo.

Se eu quebro você cola, se você quebra eu espero mas se precisar eu concerto. Se quebrar de novo eu fico. Se nada der certo eu te ouço, te abraço e fico aqui. Eu continuo aqui.

2023/01/06

Dia 2507

Deitei devagar, com meus fones de ouvido tocando um velho rock dos anos 90 onde a letra falava sobre um amor intenso. Abri os olhos e foi como se eu estivesse caindo, caindo pra cima. Como se eu pudesse me ver lá do alto. 

Eu deveria estar me preocupando menos, me apaixonando e aprendendo a tocar aquele violão. Deveria estar bebendo na mesa do bar ou na calçada em frente de casa. Eu deveria estar abrindo as portas que fechei anos atrás. 

Preciso de um beijo, de um abraço, de um refrão de Los Hermanos em Ana Júlia gritando dentro do carro com o som no máximo. Preciso de uma prece, uma oração. Preciso de um café, primeiro de tudo, um café. 

Esse é um pequeno bilhete de socorro de mim para mim mesmo tentando desesperadamente me encontrar nessas linhas novamente. 

A caneta caiu, o café esfriou e a música parou. Ainda pressiono suas cartas em meus lábios mas não lembro o som da sua voz. Então volto a deitar e ouvir aquele velho rock dos anos 90 e as lembranças são como ondas batendo sobre as pedras. Uma a uma batem forte e se quebram. Mas no fim, eu fecho meus olhos e finjo que ainda estou lá. Ainda estou lá, caindo pra cima.

2022/12/27

Dia 2506

As noites são para esquecer, os dias são para refletir mas já fazem anos que as noites me engolem por inteiro. Essas linhas são os beijos e abraços que não posso dar. Os telefonemas que não posso fazer. As mensagens que não posso digitar. As cartas que não posso mandar. São linhas para dizer o quanto eu sinto saudade e se sinto saudade significa que foram tempos bons, certo? As risadas da madrugada, os entrelaçados na cama de solteiro, as sextas feiras tão esperadas e os cafés da manhã de sábado na cama. 

Haviam mais toques, beijos, cartas e mais intenções e sonhos para o futuro. Havia muito mais sexo, abraço, lágrimas músicas especiais e mensagens no celular. Era tudo intenso, como de fosse acabar naquele mesmo instante. Era tudo muito forte, como se cada momento fosse me derrubar. Era tudo acontecendo rápido demais, forte demais com sentimentos demais. 

E o fim eminente chegou, foi nossa culpa. No começo um colocava a culpa no outro, tentamos nos reerguer em meio a solidão e a mágoa misturado ao sentimento de traição. E quando chegou o fim real entendemos que foram os caminhos que mudaram, não o amor. Algumas feridas fecharam, outras demoraram mais para curar e algumas fingimos que esquecemos. 

Hoje temos a ilusão que está tudo superado, mas se a gente se cruzar na cafeteria da esquina, ou entre as prateleiras de qualquer loja ou ainda na fila do supermercado? Se eu sorrir, você sorri de volta? Ou vou ser o estranho completamente esquecido e ultrapassado por outras milhares de lembranças que eu não estive presente? Se chegar nesse ponto me desculpe, foi a última coisa que eu queria. Mas se sorrir de volta, aceita tomar um novo café, em uma nova primeira conversa e depois... Escuta essa música, eu me lembrei de você. 

2022/12/24

Dia 2505

Esta cidade transforma as pessoas em sombras. Sem vida em seus olhos. Assim escrevo essas palavras, para escapar dessas ruas sem esperança. As pessoas se esbarram o tempo todo mas nunca se encontram. Então eu fujo. Pra dentro do carro, pra escada de incêndio, para acender outro cigarro ou para os fones de ouvido. 

É só um trecho de um livro sem importância, de uma história qualquer com um personagem que nem existe. Muito prazer, sou o cara das linhas tortas, estrofes terminados em reticências e um ponto de interrogação enorme. 

Mas existe ela, o personagem principal dessa história. E fica escrito na página 47: "Ela se vira e sorri e o sorriso dela parece que me abraça. Foi nesse momento que todas as músicas de Caetano fizeram sentido". E viramos a página, essa personagem saiu de cena e desaparece.

Como as sombras dessa cidade, sumiu sem mais nem menos. Algumas pessoas na nossa vida são assim, surgem quando não esperamos, nos dão a sensação de conforto e segurança e que o mundo, o mundo real, de fato em certos pontos vale mesmo a pena. Logo após, como um susto duram tempo suficiente pra que o coração dispare e depois se esvai. Mas sem caminho de volta, sem trilha de migalhas para irmos atrás. Simplesmente vão embora. 

Mas na página 92, quando falta apenas 3 páginas para chegar ao fim o personagem volta, trazendo mais uma brecha de luz e esperança de um novo capítulo. Uma alegria repentina, um sorriso bobo e um café. (...) Reticências. 


2022/12/10

Dia 2504


Já faz tanto tempo, isso é muita coisa. É muita tempo. É uma longa jornada desde que tudo começou e no meio do caminho desabou. E depois desse tempo todo estamos aqui na frente um do outro sem saber o que dizer. Mas eu espero conseguir, porque em todo esse tempo não houve um só dia que não pensei em você ou na sua chatice. E no timbre da sua voz. E na curva dos seus lábios quando sorria sem graça. Ou no desenho do seu quadril e seus olhos grandes. Ou no som da sua risada engraçada no meio do silêncio entre nós dois que não era constrangedor. E o calor da sua mão e seu abraço apertado. Não houve uma droga de dia que eu não sentisse a sua falta.

Eu espero que você tenha histórias para contar porque vou querer ouvir todas elas. As felizes e as tristes. Eu espero que você tenha novas músicas favoritas para ouvir no carro. Eu espero que não tenha trocado aquele seu perfume favorito, eu amo aquele cheiro em você e me faz te achar em meio a multidão. 

Eu procurei, procurei você em outros rostos, outros corpos, outros sonhos e passei muito tempo procurando e não chegando a lugar nenhum. Mas sempre pensei que se algum dia eu me sentasse na mesa com você novamente iria querer falar tanta coisa que nem saberia por onde começar. Então vamos lá:

- Garota, eu senti a sua falta. 

Comecei a fumar, parei de fumar. Comecei a beber, parei de beber. Fui a igreja uma ou duas vezes. Fiz muitas orações baixinho no travesseiro a noite. Fiquei triste e achei que era o fim, mas a gente sempre acha que é o fim e nunca é. Quase me casei, quase me casei de novo. Troquei de emprego e troquei de novo. Quis viajar, não quis levantar da cama. Quis ter uma doença fatal ou entrar em um acidente de carro. Não aconteceu. Pensei em aceitar Jesus, fumei mais um cigarro, tomei mais um gole e acordei.

Tentei plantar feijão no algodão, troquei de canal, pedi uma pizza e comi sozinho na frente da televisão desligada. Li dois livros legais e outros nem tanto assim. Te escrevi um bilhete, nunca entreguei. Escrevi uma carta, nunca postei. Escrevi uma música que nunca cantei, um poema que nunca recitei. Girei várias vezes no mesmo lugar de olhos fechados e deitei no chão. Abri os olhos e o mundo todo rodava em câmera lenta. Respirei fundo e a saudade bateu. Quando a saudade bate o coração espanca.

Porque garota, eu senti sua falta.

2022/12/02

Dia 2503

Spoiler: isso vai passar.

As pernas sempre inquietas, a cabeça conturbada e as mãos sempre em movimento. Os 12 segundos que consigo me controlar, o corpo imóvel, a cabeça vazia. Durou 11 segundos agora. Eu gostaria de esconder meu rosto na curva do seu pescoço e me esquecer ali por alguns segundos. Meu Deus, como existir pesa!

Eu sou tão barulho, é tão bom estar com alguém que é silêncio. Beba seu café, leia seus livros, o caos é lá fora. Tenho 10 segundos, diversos pensamentos e nenhuma lógica. É tudo tão rápido e o agora já foi e minha melhor versão já se foi. 9,8,7... Volta e meia no relógio. 5,4,3...2,1.

Spoiler: isso vai passar.

2022/11/27

Dia 2502



Você consegue me ouvir? Porque estou perdido.Eu sempre fui sozinho, andarilho, com fones de ouvido e universos na minha mente. Olhando esse mundo com uma ótica diferente, quase sempre deslocado de qualquer tipo de padrão. Esse negócio de "precisa ser feito" eu fugia para outra direção. Obrigações impostas me mata um pouco por dia, embora para viver nesse mundo precisamos trabalhar bastante, pagar contas, estudar, se vender uma hora em uma semana e assim por diante. Liberdade, é ilusão. 

Voce consegue me ouvir? Porque estou perdido. Foi quando ele me disse que estava muito feliz, então porque não podia ficar feliz também? Desde então fiquei feliz mesmo não estando, eu fiquei. Foi quando ela me disse que se sentia solitária e querida, todos nós nos sentimentos assim. Foi quando ela me disse que queria parar o relógio e querida, eu também queria ser o coelho de Alice. Foi quando ela me perguntou se aquele momento duraria para sempre e querida, esse é o pra sempre de hoje. 

Você consegue me ouvir? Porque estou perdido. Faço uma coleção de momentos, uma série interminável de lembranças que minha cabeça insiste em ficar apagando e voltando em pedaços sem minha permissão. As vezes acho que estou no hoje, mas na verdade o ontem não acabou. Fico preso em memórias e pessoas, gestos, aromas, timbres e toques. São gotas de novembro.

Mas você consegue me ouvir?

2022/11/22

Dia 2501


Nota de rodapé: Me leu, mas não soube me interpretar. E entre linhas e páginas virou ponto final.

O passado é confortável, seguro e concreto. Nada sai do que já se sabe. É tudo certificado, comprovado e previsível. É a linha fixa daquilo que outrora não acontecerá novamente. Por isso o agora é tão importante, mas o que eu vejo muito são as pessoas perdendo os seus agoras. 

Perdi enquanto esperava no ponto de ônibus naquele dia de chuva. Perdi segurando as flores em frente a loja de doces. Perdi sentado na cafeteria as 3 da tarde. Perdi enquanto digitava aquele email, escrevia aquela carta, mandava aquela mensagem e gravava aquele áudio. Perdi porque o universo inteiro que precisava receber tudo isso não entendia que era pra ela. 

Mundos caíram, músicas pararam de tocar na rádio, comidas preferidas deixaram de ter sua preferência. Os dias perderam um pouco de sua cor. É um pouco difícil voltar atrás, sorrir hoje parece até pecado. As noites ficaram cada vez maiores, o café cada vez mais amargo. O telefone ficou cada vez mais silencioso e a casa virou labirinto onde não me encontro mais. 

Nota de rodapé: Não é porque você aprendeu apanhando que precisa bater. 

As pessoas estão ficando cada vez mais frias e culpando o tempo, o passado, a história. Meu problema é que eu ainda seguro a flor, espero o refrão da música terminar sem tirar o cinto dentro do carro, ainda ligo e a ainda me importo. 


2022/11/19

Dia 2500

Ouviu baixinho o timbre da minha voz com um tom pouco rouco, pouco acabei de acordar. Palavras batiam nos pelinhos do pescoço fazendo a pele arrepiar. A mão sobre a mão. A perna dentro da perna e as cinturas se encaixavam. Já era tarde, tão tarde que já era cedo. 

A mão viria pra perto do rosto, um afago devagar, uma respiração segura como se nada de ruim no mundo fosse mais acontecer. É, foi nesse dia que a Terra parou. 

Um facho de luz insistiu em invadir o quarto pela pequena fresta da janela. Um risco luminoso cortou a escuridão das quatro paredes. Expôs, discretamente mas expôs, parte do queixo, parte do colo, parte do seio e minha mão sobre a mão dela. São muitas partes que eu adoro.

Quis morrer para que aquele momento fosse o último porque eu estava realmente feliz. Quis viver para sempre e desejei que aquilo durasse mil anos. Mas momentos são apenas momentos e temos uma coleção deles, uma porção deles.

É que ela levantava antes que eu de camiseta e calcinha para fazer um café pra nós dois porque sabia que eu gostava. Ela tocava uma playlist com Pearl Jam no carro quando sabia que eu tive um dia difícil. Me dava livros de presente porque sabia que eu, por mais que não tivesse tanto tempo para ler, iria tentar. Fazia carinho na minha nuca aleatoriamente, porque ela sabia... Ela sabia. 

A gente se olhava mas mais que isso a gente se enxergava. E enxergar alguém com outros olhos hoje em dia é raro. Raríssimo.

2022/11/18

Dia 2499



Ler quando a ansiedade bater. Para minha pessoa ansiosa favorita:

Respire fundo, tome um banho longo. Beba água e coloque sua música favorita para tocar. Você continua aqui, apesar das estrelas caírem. Você continua aqui!

Não vai chover para sempre e sempre depois da tempestade, é arco íris. Como vamos saber sobre os momentos bons, felizes e mágicos se não houver também os momentos ruins, tristes e dramáticos? Vinícius tinha razão, "a tristeza é o intervalo entre duas felicidades".

Ande descalço no tapete fofinho contraindo os dedinhos. Tire o sutiã. Tire cinto, tire a vergonha da frente e desligue o seu celular. Abrace o cachorro, o gato, o filho, se abrace. Fique nua na frente do espelho "você é gostosa pra caral#%" e é isso aí. 

Somos imãs, você atrai aquilo que emite. Mas sem ninguém ver, o universo traz. Toda sua história, todas as suas páginas acontecem fora do controle que você acha que tem.

Aprender a deixar ir para saber o que quer voltar, amor é bumerangue que se você lançar, você recebe de volta. Feche os olhos e sorria. Janela do ônibus vira cena de cinema então o que você quer pra sua vida? Não se cobre tanto, a vida já faz isso. Se importe menos, bem menos.

Eu me abaixei e fiz uma oração baixinho. Só Deus me ouviu naquela noite mas eu venci mais um dia. Enfrentei três guerras e venci apenas duas. E amanhã serão outras batalhas e novas batalhas e novos dias. Amanhã é outro dia. Amanhã é sempre outro dia. A gente nasce sozinho e morre sozinho, aproveite a viagem.

Todo dia a mesma coisa ele fazia. Acordava cedo e não dormia. Pegava o trem e não sorria. Estava vivo mas não vivia.

(Não consegui terminar - tive uma crise de ansiedade)

2022/11/15

Dia 2498



Me operei sozinho no quarto. Assim, sem anestesia mesmo. Naquela noite tudo me doía. Te retirei de mim e isso vai muito além de poesia. E nessa pequena rima quis dizer tudo aquilo que um dia eu diria se não fosse o destino e meu outro caminho, onde outrora se põe.

Quando olho para o meu dia, vejo que a maior parte dele foi para limpar os estragos do dia anterior. Fico tentando juntar os cacos quebrados de ontem, hoje. E amanhã junto novamente o que o passado se foi. Assim, rápido demais para que eu pudesse perceber que já foi. E já foi. Já fomos.

Relacionamento é para colecionar momentos, felicidade, compartilhar alegria e ter a certeza que aquela parte da vida está sendo testemunhada por outro alguém. Que sua história tem reticência e não ponto final. Não serve para colecionar anos, tempo. Porque colecionar tempo a morte também o faz.

E quando para naquela esquina e guardo meu cigarro, penso no amor e no calor do meu peito. Me assustei por me ver tão feliz. É que eu gosto do marrom dos olhos dela, principalmente quando eles ficam sem graça por perceberem eu estou olhando pra ela. 

Droga, me apaixonei e sem anestesia. Droga, não tem mais cola pra tanto caco assim. Droga, me deixa ser sua testemunha? Não temos tempo, tudo é agora e o agora já se foi. Fomos. 

2020/10/07

Dia 2497


A porta bateu, ela entrou. Eu ouvia algum rock antigo dos anos 80/90 no rádio baixinho com letras que falavam de amor e segredos. O cheiro dela invadiu o carro e sem dizer uma palavra eu me apaixonei pela primeira vez, outra vez.

Eu pensava em tirar a roupa dela, eu pensava muito em tirar a roupa dela. Mas eu não conseguiria despir ela por inteiro sem antes ter despido toda sua alma. Absorver tudo que fosse medo, insegurança, raiva, mágoa e ressentimento que fosse dela em mim e transformar tudo isso em amor... Carinho. E foi nessa hora que percebi que havia me apaixonado pela segunda vez, outra vez.

Ela aumentou o som, olhou para mim e sorriu. O foda é quando ela sorri pra mim. Ela me ganha sempre. Nem conhecia a música mas depois de ouvir o refrão duas vezes, tentou continuar na terceira fazendo a segunda voz. E entre a primeira, segunda e terceira letra musical eu percebi que foi nesse momento que me apaixonei pela terceira vez, outra vez.

Em casa, troca de roupa e da risada. Prende o cabelo, deita no sofá e joga as pernas em cima das minhas. Tua voz, teu cheiro, faz tua presença ser morada. Faz piada, joga almofada, fica irritada, faz birra, pirraça, graça de novo. E infinitas vezes eu projetei ela na minha imaginação. E ai me pergunto, onde esta você agora além de dentro de mim? Essa foi a quarta vez, outra vez.

Ela respira no meu ouvido, sussurra baixinho que esta tudo bem e da pra perceber que ela fala sorrindo enquanto a gente se mexe juntinho. Ela aperta as mãos nas minhas costas, mas me abraça cheia de carinho. Ela transborda vontade, me afasta pra olhar no olho mas as pernas me puxam pra dentro dela de novo. Ela me beija, me beija e sorri. E esse é o gesto de amor mais bonito que eu já senti. Essa foi a primeira vez, outra vez.

2020/10/06

Dia 2496



Esse é grito seco, um pedido de socorro a todos aqueles que podem me ouvir. Um apelo simples mas verdadeiro. Mas lembrem-se, uma lágrima já começou com um sorriso. E é exatamente assim que começo esse texto: Sorrindo.

Foi muito, muito rápido. A luz da garagem acendeu, a porta o carro bateu. O motor ligou e logo em seguida o farol fechou. Eu não vi o farol fechar. Eu juro por Deus que eu não vi. Depois o silêncio, o vidro quebrado e a fumaça. É sempre um clichê de filme americano dizer que a gente vê a vida inteira passar diante dos olhos quando vai morrer. E naquela noite, então, eu morri.

Perdi a consciência por alguns segundos, acabei vivendo dois anos preso naquele silêncio. Comprando uma história, minha alma estava à venda. Perdi a consciência de novo. Tentei alcançar a vida com as mãos mas ela escorregou, passou entre meus dedos devagar. Eu acordei, vi o céu mais azul da minha vida ser o telhado do mundo inteiro. Fiz uma oração e fechei os olhos novamente.

Eu não reconheço mais as pessoas que eu convivo. São todos rostos estranhos e eu não me importo mais. Acho que não consigo amar mais ninguém. Perco a atenção sobre qualquer coisa, o tempo todo. É só mais um e-mail, mais uma ligação, mais um ponto a bater ás 18hs, mais um "débito ou crédito senhor?", mais um boleto, mais planos e planos que nunca saem do papel. Dizemos "é a vida" e essa é a expressão mais triste do mundo.

Hoje no farol não houveram pedidos de desculpas, declarações de amor, um abraço apertado, um beijo apaixonado, um carinho nos cabelos, uma gargalhada alta no meio do domingo entediado. Não houve tempo. E eu não consegui comprar mais. 

Ás vezes tudo que a gente precisa é um tempo simples, um gesto honesto cheio de querer. Ás vezes tudo que a gente precisa é um "ouvi essa música e lembrei de você", ou "vamos dar uma volta?" e ainda "levanta dessa cama, olha esse dia". Ás vezes tudo que a gente precisa é ouvir uma música do Charlie Brown, assistir um filme que revire nossas ideais e discuta sobre a imensidão do universo. Conversar sobre qualquer coisa sem sentido só pra fazer rir. Ilustrar o capitão gancho e as outras coisas. Tocar violão sem saber tocar, usar uma guitarra imaginária e um microfone para uma plateia de cem mil pessoas que não estão lá. Ás vezes tudo que a gente precisa é de companhia.

Hoje, um relógio parou e uma lágrima caiu.


2020/09/26

Dia 2495

Então, é isso. Simples. A noite silencia o mundo que é pra gente poder se ouvir. E eu que pensei que ela iria embora logo ficou até a manhã seguinte e quando percebi, era dia de novo. Você já conheceu alguém que fala tão bonito que espera que aquela conversa não termine? Que o silêncio constrangedor de elevador não apareça. Que ela fale de tudo, sobre o arroz queimado, a viagem de carro de quando era pequena, de como usa o filtro de café dobrado como se fosse uma técnica importantíssima em aromatizar mais o sabor quando a quantidade exata de água passa do filtro para o café, e do café ao bule.

Mas eu não percebi a hora que a língua dela estava dentro da minha boca e eu só estava pensando que queria que aquele momento durasse para sempre. O cheiro de shampoo no cabelo molhado, as coxas dela encostadas nas minhas, os dedos pequenos passeando pelo meu rosto como se estivesse me lendo em braile bem devagar e a respiração dela tentando se controlar com o batimento cardíaco.

Ai vem abraço, beijo, risada, conversa e choro. Quando pergunto porque, ela diz "Não tem porque, o problema é que uma lágrima puxa a outra". Ela não sabia explicar, eu não me importava tanto assim. Só queria que ali, naquele momento, ela encontrasse conforto, casa, lar, aconchego, segurança e qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor. A verdade é que eu estava disposto a gastar todo meu tempo, em todos meus dias para fazer ela se sentir um pouco mais feliz que fosse. Ela merecia isso, era a garota mais fodida que eu já tinha conhecido. Ela sabia disso. Eu sabia. O mundo não. E o mundo ás vezes é um lugar cruel demais para pessoas assim.

E lá estávamos nós. O vinho ficou mais roxo, a noite ficou maior e ela já não se sentia mais tão solitária. Ás vezes tudo que precisamos é que alguém apenas nos ouça. Sem dar a própria opinião, sem pensar em como ajudar, prestando atenção em cada palavra e esquecer o mundo lá fora. A chuva escorre na janela e enquanto ela poetisa sobre dois joelhos ralados e um dia incrível, eu fico ali sentado ouvindo ela falar bonito.

Deus, eu nunca te pedi nada mas se for possível... Não termine essa noite ainda. Ainda.



2020/09/20

Dia 2494

São 4:32 da manhã. Eu deveria estar pensando em me exercitar, em começar a caminhar, correr, me empenhar mais no trabalho e buscar uma promoção. Em comer menos carboidrato, pensar mais sobre produtos naturais. Ficar atento as noticias e aos e-mails de ontem que não respondi. Deveria estar pensando em investir na bolsa, abrir uma poupança, mudar de emprego, carro, celular, casa. Mas são 4:35 e eu só consigo pensar que não lembro a última vez que ralei o joelho ou senti o cheiro do mato. Que não lembro a última vez que gargalhei até a barriga doer ou que ouvi o barulho das ondas do mar quebrarem na maré cheia. Será o mal da nossa geração ou o alzheimer? Não sei, então, escrevo.
Ás 4:48 fiquei triste, olhei para o teto escuro procurando uma razão que me fizesse levantar. Me senti vazio, a cama vazia, o quarto, a vida. Faltou uma ponta solta, um lençol amassado, uma ressaca brava, um abraço apertado. Faltou um refrão cantado no farol, um "com licença" e "obrigado" ditos sorrindo. Faltaram horas no meu dia anterior, sobraram horas na minha madrugada. Onde enfiei aqueles 20 segundos de coragem insana Benjamin Mee?
São 4:52 e bocejei grandão. Lembrei de uma piada, uma roda de conversa, uma carta escrita a mão, uma saudade, o final de um sonho mas dai acordei e esqueci de novo. Quis gritar, mas o grito saiu abafado no travesseiro dentro da minha cabeça e no fim não emiti nenhum som. Quis chorar, mas meu choro se afogou nas lágrimas que nunca caíram. Quis correr dali, mas são 4:55 e eu nem levantei da cama ainda.
Queria ter 8 anos novamente e me apaixonar pela garota mais bonita da classe só para quebrar o coração pela primeira vez e ter o gosto de sentir algo pela primeira vez, outra vez. Coloquei cem metas para cumprir no primeiro dia do ano, cumpri com 3 e estamos em setembro, esqueci as outras noventa e sete. Fiquei orgulhoso três vezes, me decepcionei outras noventa e sete. Fiquei feliz e triste, mas a prioridade é manter-se sorrindo. 
5:00 em ponto. Desligo o despertador e penso que não há mais decepções. Então que se foda, hoje vou ser feliz.